quinta-feira, 9 de maio de 2013

ISMAIL KADARÉ




A AMBIGUIDADE DE LER



Quando se faz qualquer referência a Albânia é, quase sempre, para a utilizar como paradigma político de uma ideologia que defende a independência nacional até ao isolacionismo e um igualitarismo económico que estabelece um drástico nivelamento por baixo. O exemplo foi, de forma tão sistemática, usado entre os seus detractores e defensores, que o neologismo “albanização” é hoje reconhecível na comunicação social de qualquer língua europeia.

Mas como sempre sucede nestes casos, o debate ideológico encobriu parte da realidade do povo albanês, sendo quase desconhecidas do grande público a sua história, a sua cultura e, naturalmente, a sua literatura. No entanto, se se tiver em consideração estes factores, compreende-se que a radical intransigência na defesa da independência nacional, que caracterizou os últimos anos do regime socialista albanês, não é apenas explicável por uma obsessiva opção de Estado: tem fundamentos históricos e culturais, aliás comuns a toda a região balcânica e adriática - como se pode constatar no brutal drama que hoje se vive na extinta Jugoslávia - e aos quais não é estranha a hegemonia política do Império Otomano durante vários séculos.

Também não é estranha a esta problemática da independência nacional grande parte da obra de Ismail Kadaré e a sua intrigante popularidade em toda a Europa. Este prolífico autor, com uma obra, na sua predominância, de ficção, mas também com ramificações para o ensaio e para a poesia, corporiza, num país com uma literatura escrita bem pouco expressiva, quase toda a produção literária albanesa deste século.

Ismail Kadaré é, por isso, a figura de maior prestígio internacional da Albânia. Esse prestígio deve-o, sem sombras de dúvidas, aos seus romances históricos, que atingem uma epicidade muito peculiar dentro da literatura contemporânea.

A relação que Ismail Kadaré manteve com o regime socialista albanês passou da total adesão a uma atitude de velada crítica e, por fim, de rotura. Assim, se, em certos momentos, esteve ligado a mais alta hierarquia do Estado, recebendo benesses quase impensáveis num país como a Albânia, noutros, mais recentes, foi algumas vezes acusado de expressar “uma perspectiva demasiado subjectivista da história nacional” e, por conseguinte, denunciado como “corruptor social”. Em 1990, quando já era mais do que notório o estertor do regime socialista, resolveu pedir asilo político em França.

Talvez se relacione com este percurso a sensação de ambiguidade que ressalta da leitura de O Palácio dos Sonhos, o romance agora traduzido. E, com ela, a de frustração, em particular para quem começou a conhecer este autor pelos seus romances dominantemente históricos.

O romance é uma parábola sobre o arbitrário. A acção passa-se no Imperio Otomano, mas num passado “forjado” pelo autor (séc. XIX?) e numa cidade insituável, e onde o Estado assenta a sua defesa numa instituição que pretende interpretar os sonhos dos seus cidadãos e que se torna de tal modo importante que parece controlá-lo por inteiro.

O mal-estar da personagem principal (um homem em início de carreira profissional, oriundo de uma família tradicionalmente ligada aos mais altos escalões do poder político) começa logo com a desmesura do dito “palácio”, pelos seus intermináveis e labirínticos corredores, pela massificação dos funcionários e das suas hierarquias. Em seguida, pela dimensão especulativa do seu trabalho: seleccionar e interpretar sonhos.

Aqui, O Palácio dos Sonhos centra-se noutro problema: o carácter arbitrário de qualquer hermenêutica. De facto, interpretar ou “ler” quer dizer construir uma outra realidade - uma realidade mais rarefeita, mas, talvez por isso, na aparência mais perfeita - que absorve a “outra” e se torna absoluta. Esta certeza dá à personagem principal a plena consciência da “alegitimidade” do seu trabalho; porém, isso não basta para se libertar dele: o Estado tem necessidade de prever o futuro (é esse o objectivo último de qualquer hermenêutica), e essa arte, quanto mais divinatória for, mais garantia dá de o dominar.

A visão que neste romance se apresenta do sonho é a de um código fechado, que só tem sentido dentro das suas próprias associações de elementos, e que é de todo exterior à vontade do sonhador (a “construção” de sonhos é um dos crimes mais graves contra o Estado). Interpretar os sonhos torna-se, assim, numa forma de construir uma realidade arbitrária: um Estado que conhece todos os sonhos dos seus cidadãos é um Estado que tem um saber total, porque arbitrário. E, quanto mais o Estado sabe, menos o cidadão tem capacidade de previsão, vivendo subjugado pelo terror de ser uma entidade indefinida e totalizante que estabelece o seu futuro: é isso que a personagem principal descobre, quando constata as catástrofes e as vantagens que provocaram uma sua falha - que, depois, deixou de o ser - de interpretação de um sonho.

A ambiguidade deste romance de Ismail Kadaré resulta, antes do mais, de entender que esta é a situação que qualquer Estado pretende atingir. Neste sentido, O Palácio dos Sonhos tanto pode ser encarado como um libelo acusatório contra os Estados totalitários como uma forma de os redimir. Por outro lado, escrever um romance sobre o arbitrário faz logo aparecer no horizonte da leitura um poderoso espectro: Franz Kafka. Este romance, página a página, não consegue fugir dele, e, por isso, dá ao leitor a ideia de que não passa de uma sequela, mais ou menos conseguida, da obra deste autor.


Publicado no Público em 1992.


Título: O Palácio dos Sonhos
Autor: Ismail Kadaré
Tradutor: Gemeniano Cascais Franco
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 1992
181 págs., € 6,04



terça-feira, 7 de maio de 2013

MARIO VARGAS LLOSA 1




EROTIZE-SE O MUNDO!



Na obra de Mário Vargas Llosa, o erotismo tem sido um elemento temático mais ou menos constante. Recorde-se, por exemplo, e apenas para referir os casos mais evidentes, obras como Pantaleão e as Visitadoras, História de Mayta, Quem Matou Palomino Molero? e A Tia Júlia e o Escrevedor. Porém, a temática erótica só irrompe de forma soberana em O Elogio da Madrasta. Talvez por isso, esta novela tenha sido encarada por alguma crítica - de uma forma preconceituada - como uma espécie de simples “divertimento” que permitiu ao escritor evidenciar a sua perícia técnica em termos narrativos, pois conseguia arrastar o leitor para um confronto com os seus fantasmas mais íntimos e inebriá-lo, possivelmente, com algumas “tentações” inconfessáveis.

Sucede que Vargas Llosa resolveu regressar a esta sua obra e provar, através de uma “sequela”, que não entendia O Elogio da Madrasta como uma obra menor e que, pelo contrário, esta tinha um papel determinante na evolução do seu pensamento. E, com esse fim, redigiu Os Cadernos de D. Rigoberto, agora traduzido e editado no nosso país, dando uma volta de trezentos e sessenta graus à trama do livro anterior e encerrando (?) com um final feliz o romance que tinha deixado “aberto” de uma forma funesta.

A organização de Os Cadernos de D. Rigoberto denuncia com clareza uma intencionalidade “funcional”. De facto, o romance organiza-se em longos capítulos que, quase sempre, se dividem em quatro partes: uma primeira, em que se narram as “visitas” do enteado Fonchito à casa em que a madrasta foi viver, após a sua separação de D. Rigoberto, e em que aquele utiliza, como instrumento encantatório e de sedução, a obra pictográfica de Egon Schiele; uma segunda, onde se expõem os “delírios” de que D. Rigoberto se sente “possuído”, em consequência da ferida aberta pela ausência de Lucrécia, a “madrasta”; uma terceira, constituída por violentas imprecações de D. Rigoberto contra os grupos sociais que considera serem seus inimigos; por fim, uma última composta por cartas anónimas em que os “três” amantes se insinuam entre si.

Esta forma de organização de cada capítulo permite evidenciar algumas considerações determinantes para o autor nesta temática: primeiro, que não existe erotismo sem uma mediação estética e que ele é, por conseguinte, uma resultante da educação do gosto (e dos sentidos) através da arte; segundo, que o erotismo é, antes do mais, uma criação intelectual (de valor e importância similar à criação artística, científica, etc.) que utiliza o objecto amado para sua concretização e consequente fruição; terceiro, que o erotismo é a manifestação mais exaltante do individualismo, entendendo este como o quadro ideológico, criado pela civilização ocidental, que mais longe levou a emancipação do homem; por último, que o erotismo é um jogo comunicante que balança sistematicamente entre a ocultação e o desvendamento.

Percebe-se, assim, que existe nesta obra - e este é um dos seus aspectos mais interessantes e, de certo modo, inovadores - uma intencionalidade de “manifesto ideológico”. Há, portanto, uma vocação militante em Os Cadernos de D. Rigoberto em favor de uma erotização do mundo, entendendo-se esta como um “estádio superior” da presente sociedade.

Como todas as obras com esta vocação, Os Cadernos de D. Rigoberto tem as suas contradições e limites. Mas, por isso mesmo, esta obra deveria motivar algum debate e reflexão. Pela minha parte, gostaria de salientar o facto de o erotismo possuir - em consequência do motor do desejo - uma lógica própria que absorve todas as manifestações humanas, utilizando-as como instrumento das suas próprias “construções imaginárias”, mas que não se sujeita a nenhuma delas, da mesma forma que a fruição alimentar (e lamento ter que cair, mais uma vez, na estafada analogia entre comida e sexualidade) pode ter, por exemplo, uma componente estética, mas não é, decerto, a mais determinante.

Esta observação é importante, porque parece-me existir em Os Cadernos de D. Rigoberto uma espécie de “desculpabilização artística” do erotismo que é inegavelmente equívoca. A tentativa de sobrevalorização do erotismo por via da arte pode ser uma forma hipócrita de não lhe compreender a especificidade: o desejo, na sua busca de uma afirmação cada vez mais plena e intensa, encena-se num ritual onde a coreografia e os seus símbolos-fétiches (objectos, palavras, espaços, etc.) têm sempre um tratamento “personalizado” e irrepetível. A não compreensão deste facto continua a originar uma falsa demarcação entre erotismo e pornografia (será ainda admissível entender que a pornografia, desde que tenha uma componente artística, deixa de ser pornografia?), à condenação liminar desta, e a repudiar - mais uma vez - o facto de a satisfação partilhada do desejo transfigurar em sublime todos os meios e formas que utiliza para se metamorfosear e renascer.

Mesmo reconhecendo a generosidade ética e ideológica de Os Cadernos de D. Rigoberto e a pertinência do seu contributo para uma compreensão mais rigorosa dos comportamentos eróticos nos dias de hoje, deve ser salientado que a principal limitação desta obra está ao nível artístico. Não que Mário Vargas Llosa não faça valer, mais uma vez, os seus inegáveis méritos estilísticos e narrativos (algumas das imprecações de D. Rigoberto são deliciosos e bem humorados textos de prosa)… Contudo, o autor não consegue libertar-se de uma excessiva “previsibilidade” da trama que permite o leitor prevenir-se contra a envolvência sensual com que o autor procura enredá-lo com vista a uma mais fácil aceitação das suas teses e posições.

Publicado no Público em 1998.


Título: Os Cadernos de Dom Rigoberto
Autor: Mario Vargas Llosa
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 1998
265 págs., € 16,90