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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

MICHEL RIO 2

 
 
 

AS TREVAS E A LUZ
 
O problema de uma certa ideologia e de alguma literatura (e aqui pontifica, e de que maneira, a literatura francesa deste século) foi o de crer que o homem é Deus: foi essa a imagem a que algum humanismo não conseguiu (ou não quis) fugir. Mas, nos últimos anos, talvez décadas, a História tem provado como isto foi um enorme logro. E que matou tanta ou mais gente que as catástrofes naturais, por exemplo.
 
Hoje devia ser mais do que sabido (mas é, de facto, esquecido com facilidade) que o homem é erro. E que é na luta contra o erro que se tem afirmado como homem. Nunca foi posto em dúvida, que se saiba, o sentido da luta da razão contra o caos. Desde que se tenha a ressalva, naturalmente, de entender como caos muito do que foi assumido como razão e de que esta assuma a paixão como elemento ordenante, redutor do caos.
 
É de tudo isto que trata Merlim de Michel Rio. E é assombroso (mas sintomático) que um escritor, no final deste século, sinta necessidade de escrever um romance sobre este tema. E faça um livro optimista, ferverosamente apologista do sentido histórico da razão.
 
Michel Rio resolveu ir buscar um mito das primeiras ficções. Quer isto dizer, ao tempo em que estas introduziram, de forma sub-reptícia, alguns grãos de loucura nos fundamentos da Verdade. E desse mito fazer um profeta laico, um defensor da força espiritual contra a força física. O que este romance narra é o tempo das névoas, em que os homens viviam asfixiados por todas as naturezas, em que as instituições não tinham tido força para as afastar, impondo-se como Lei. E o contributo de um mito, disfarçado aqui de homem, para a impor.
 
“Tudo o que há é guerra”, diz uma personagem crucial deste romance. E Merlim vai lembrando-se desta frase para a combater. Artur e a Távola Redonda são criações de Merlim para fazer crer aos homens e ao (seu) espírito que aquela afirmação não é um destino irreparável.
 
A paixão, quando irrompe, corta, nestes tempos, a direito como uma navalha e todo o tipo de incestos são aqui cometidos, todo o tipo de adultérios são sem mácula. A paixão é, em Merlim, o sedutor, o indominável, o irremediável hemisfério sul do espírito. Mas ele é também entendido como o principal fornecedor de matéria-prima do prazer e da paixão. E esta como corpo, como quotidiano necessário para o trabalho da razão. E, contudo, como sua principal inimiga também: Merlim apaixona-se; mas salienta sempre que o papel do soberano, por dever de eternidade, está em afirmar a Lei contra a paixão.
 
Espero que esteja de férias, leitor. Se estiver, leia este livro. Michel Rio é um autor francês com um certo traquejo profissional (este é o seu sétimo romance). Não se pode dizer que seja na verdade um criador, mas é brilhante. E tem inegáveis méritos de estilista, que a tradução, felizmente, deixa revelar. Talvez o leitor, no fim, não se sinta muito mais culto, mas fica, de certeza, empolgado e reflexivo sobre aquilo que há muito já reflectiu.
 
Segundo Merlim, a razão deixou ruir várias vezes o mundo enquanto Merlim foi vivo. Quantas vezes irá ruir mais? Que cada um tropece nas ruínas da sua vida... Aprenda, leitor, aquilo que já sabe: a razão é sempre curta. É mesmo a sua qualidade mais essencial. Aprenda que a Fata Morgana, a exilada, canta e encanta, como uma sereia, sempre, sempre, a sua razão e a sua verdade, leitor. Merlim, antes de desaparecer da história e se tornar de novo mito, enterrou o cadáver de Artur, o campeão da Justiça, junto de Morgana, a irmã, amante e inimiga. E o “recado” torna-se óbvio: nem estamos em Camelot, nem estamos em Avalon, mas a meio caminho, num canal (o Canal da Marcha) por onde a vida passa.
 
Confundi-o, leitor? Não queria, confesso. Por isso, utilizo, como um comentarista medieval, um argumento de autoridade: a crítica francesa, ao analisar este romance, lembrou Shakespeare. Aquele (com Cervantes) que tinha um pé nas trevas e outro na luz. Será esse o caminho de um iluminismo deste fim de século? Será, pelo menos, uma suave ponderação para se ter ao sol de Setembro.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: Merlim
Autor: Michel Rio
Tradução: Telma Costa
Editor: Teorema
Ano: 1990
139 págs., € 8,98
 
 


terça-feira, 19 de novembro de 2013

MICHEL RIO 1

 
 



PRETENSÃO E TEORIAS

 Desde há alguns anos, que se foi generalizando a “imagem” da literatura francesa contemporânea como desinteressante, confusa e maçadora, de um formalismo excessivo, solipsista e de temática medíocre, e tenta justificar-se esta “imagem” pelo facto de os antigos “clercs” do pós-guerra e dos anos sessenta terem desaparecido e não existirem novas figuras que os tenham substituído. Mas quem acompanha de forma atenta o desenvolvimento desta literatura sabe que essa “imagem” é bem injusta e não tem em consideração que a atmosfera cultural do mundo se alterou profundamente nos últimos vinte anos e hoje os ventos sopram de forma hegemónica vindos das terras anglo-saxónicas. E que esta circunstância óbvia não retirou interesse à literatura francesa, só lhe retirou “visibilidade”.

No entanto, qualquer argumentação em favor da cultura e da literatura francesas torna-se sinceramente difícil em presença de livros como este O Princípio da Incerteza de Michel Rio. Este escritor, que começou a publicar nos finais da década de setenta, tem construído uma obra prolífera, mas caracterizada por uma significativa irregularidade: alguns dos seus romances são estimulantes, lembro os casos de Merlim e Tlacuílo (também traduzidos e editados pela Ed. Teorema), ou ainda de Manhattan Terminus e, segundo parece pela recepção que lhe fez a crítica francesa, o muito recente La Statue de la Liberté; outros são, de uma forma quase inexplicável, assombrosamente falhados, como é o caso deste muito breve O Princípio da Incerteza. De qualquer modo, esta irregularidade já permitiu perceber uma das principais tentações em que o autor por vezes cai, fazendo desmoronar alguns dos seus romances: o gosto de Michel Rio pela filosofia e pela teoria em geral faz com que as suas obras sejam muitas vezes uma mera “exposição” de algumas problemáticas da actualidade, sem uma verdadeira e coerente contribuição do autor, nem um elaborado e consistente tratamento narrativo.

 O Princípio da Incerteza inicia-se com uma situação onde um escritor, que desistiu de escrever, deambulando à beira-mar, se sente, de súbito, fascinado por uma paisagem. E, perante a emoção que esta paisagem lhe provoca, torna-se mais convicto no seu cepticismo sobre o sentido do seu trabalho, reforçando-lhe a ideia de que o único sentido para a existência é, depois de fruir o universo como um puro “voyeur”, “se diluir” nele numa comunhão mortal.

 Porém, depois deste princípio relativamente aliciante, Michel Rio resolve efectuar uma viragem no romance e iniciar, à maneira das novelas em diálogo filosófico de Voltaire, um longo debate, entre o escritor e uma outra personagem, um velho actor de cinema em situação de “reforma”, sobre temas como o significado do acto de escrever e da arte, a figura de Deus, a relação entre a filosofia e a ciência, a natureza do tempo, a física de Galileu e Newton e a de Hawking, o pensamento e a matéria, o “Big-Bang” e o destino do universo, o determinismo, o caos e a eternidade, etc., etc., ocupando mais de metade do romance com esta ininterrupta exposição de teorias e ideias. É certo que o sentido deste diálogo é contextualizar a motivação que levou o escritor a deixar de escrever, convencer o leitor da “impotência” da criação humana perante as forças do universo e fundamentar a posição do escritor em assumir-se como uma simples partícula de vida num jogo cósmico que não pode dominar. Mas é necessário confessar que esta opção de Michel Rio não está de modo algum bem resolvida e que O Princípio da Incerteza, durante esta longa parte, mais parece uma obra de divulgação científica e filosófica, vagamente romanceada, onde o autor se deleita em desfigurar-se numa pretensiosa ostentação de saberes. Este pretensiosismo é tanto mais acentuado quanto está associado a uma fácil sofisticação de ambientes, num preciosismo esteticista que torna mais nítida a dimensão artificiosa dos diálogos e das situações.

No final, o romance faz uma nova viragem e, através de uma situação de “rodagem” cinematográfica, em que se está a recriar a situação anteriormente vivida entre as duas personagens principais, procura-se analisar a relação interactiva entre a arte e a vida, voltando-se de novo - mas aqui, sim, de forma romanesca - ao ponto de partida filosófico do início do romance sobre o primado da vida sobre a arte.

 Os aspectos mais interessantes de O Princípio da Incerteza confinam-se a uma certa reflexão sobre o medo do fim (o fim da escrita, o fim dos afectos, o fim da vida) e a uma perturbante associação entre o desejo de “diluição de si na paisagem” como perfeito sentido da existência e o desejo sexual como impulso para a “diluição de si no Outro”, assumindo aqui o Outro uma unicidade cósmica. É evidente que esta concepção da sexualidade, tal como aparece formulada no romance, tem uma excessiva e questionável componente “masculina”. De qualquer forma, é nestas páginas que perpassa uma certa “sensualidade” que faz recordar, neste aspecto, a obra de André Pieyre de Mandiargues, e que evidencia as qualidades estilísticas que Michel Rio já bem explanou noutras obras.

                   
Publicado no Público em 1997.

 

Título: O Princípio da Incerteza
Autor: Michel Rio
Tradutor: Magda Bigotte de Figueiredo
Editor: Ed. Teorema
Ano: 1997
101 págs.,  esg.