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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

MICHEL RIO 2

 
 
 

AS TREVAS E A LUZ
 
O problema de uma certa ideologia e de alguma literatura (e aqui pontifica, e de que maneira, a literatura francesa deste século) foi o de crer que o homem é Deus: foi essa a imagem a que algum humanismo não conseguiu (ou não quis) fugir. Mas, nos últimos anos, talvez décadas, a História tem provado como isto foi um enorme logro. E que matou tanta ou mais gente que as catástrofes naturais, por exemplo.
 
Hoje devia ser mais do que sabido (mas é, de facto, esquecido com facilidade) que o homem é erro. E que é na luta contra o erro que se tem afirmado como homem. Nunca foi posto em dúvida, que se saiba, o sentido da luta da razão contra o caos. Desde que se tenha a ressalva, naturalmente, de entender como caos muito do que foi assumido como razão e de que esta assuma a paixão como elemento ordenante, redutor do caos.
 
É de tudo isto que trata Merlim de Michel Rio. E é assombroso (mas sintomático) que um escritor, no final deste século, sinta necessidade de escrever um romance sobre este tema. E faça um livro optimista, ferverosamente apologista do sentido histórico da razão.
 
Michel Rio resolveu ir buscar um mito das primeiras ficções. Quer isto dizer, ao tempo em que estas introduziram, de forma sub-reptícia, alguns grãos de loucura nos fundamentos da Verdade. E desse mito fazer um profeta laico, um defensor da força espiritual contra a força física. O que este romance narra é o tempo das névoas, em que os homens viviam asfixiados por todas as naturezas, em que as instituições não tinham tido força para as afastar, impondo-se como Lei. E o contributo de um mito, disfarçado aqui de homem, para a impor.
 
“Tudo o que há é guerra”, diz uma personagem crucial deste romance. E Merlim vai lembrando-se desta frase para a combater. Artur e a Távola Redonda são criações de Merlim para fazer crer aos homens e ao (seu) espírito que aquela afirmação não é um destino irreparável.
 
A paixão, quando irrompe, corta, nestes tempos, a direito como uma navalha e todo o tipo de incestos são aqui cometidos, todo o tipo de adultérios são sem mácula. A paixão é, em Merlim, o sedutor, o indominável, o irremediável hemisfério sul do espírito. Mas ele é também entendido como o principal fornecedor de matéria-prima do prazer e da paixão. E esta como corpo, como quotidiano necessário para o trabalho da razão. E, contudo, como sua principal inimiga também: Merlim apaixona-se; mas salienta sempre que o papel do soberano, por dever de eternidade, está em afirmar a Lei contra a paixão.
 
Espero que esteja de férias, leitor. Se estiver, leia este livro. Michel Rio é um autor francês com um certo traquejo profissional (este é o seu sétimo romance). Não se pode dizer que seja na verdade um criador, mas é brilhante. E tem inegáveis méritos de estilista, que a tradução, felizmente, deixa revelar. Talvez o leitor, no fim, não se sinta muito mais culto, mas fica, de certeza, empolgado e reflexivo sobre aquilo que há muito já reflectiu.
 
Segundo Merlim, a razão deixou ruir várias vezes o mundo enquanto Merlim foi vivo. Quantas vezes irá ruir mais? Que cada um tropece nas ruínas da sua vida... Aprenda, leitor, aquilo que já sabe: a razão é sempre curta. É mesmo a sua qualidade mais essencial. Aprenda que a Fata Morgana, a exilada, canta e encanta, como uma sereia, sempre, sempre, a sua razão e a sua verdade, leitor. Merlim, antes de desaparecer da história e se tornar de novo mito, enterrou o cadáver de Artur, o campeão da Justiça, junto de Morgana, a irmã, amante e inimiga. E o “recado” torna-se óbvio: nem estamos em Camelot, nem estamos em Avalon, mas a meio caminho, num canal (o Canal da Marcha) por onde a vida passa.
 
Confundi-o, leitor? Não queria, confesso. Por isso, utilizo, como um comentarista medieval, um argumento de autoridade: a crítica francesa, ao analisar este romance, lembrou Shakespeare. Aquele (com Cervantes) que tinha um pé nas trevas e outro na luz. Será esse o caminho de um iluminismo deste fim de século? Será, pelo menos, uma suave ponderação para se ter ao sol de Setembro.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: Merlim
Autor: Michel Rio
Tradução: Telma Costa
Editor: Teorema
Ano: 1990
139 págs., € 8,98
 
 


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

ERIK ORSENNA

 
 
 
TAREFA INGLÓRIA
 
Um dos critérios mais sintomáticos, que o meio editorial português tem utilizado, para a escolha, com vista a eventual tradução e edição, de títulos e autores franceses, é o dos prémios literários. É um critério frágil e revelador das dificuldades que, na actualidade, os nossos editores têm em se orientar na selva da produção literária e do movimento editorial gaulês. Tanto mais que é sabido que a concessão de um prémio a uma obra, nos casos, pelo menos, mais importantes, como é o Goncourt, é em grande parte consequência de um complexo jogo de influências que as casas editoras exercem sobre os membros do júri (na generalidade, autores dessas mesmas casas editoras).
 
Erik Orsenna ganhou o prémio Goncourt em 1988, com o romance A Exposição Colonial (já editado no nosso país), e, por isso mesmo, foi bastante referenciado durante esse ano no meio literário francês. Naturalmente, integrou também a comitiva de escritores que se deslocou a Portugal no ano seguinte, no âmbito do programa das “Letras Francesas”; no entanto, como sucede sempre nestes intercâmbios, o que se pretende nestas circunstâncias não é tanto chamar a atenção para este ou aquele autor (a composição destas “embaixadas” é, de um modo quase inevitável, resultante de condicionalismos vários), mas permitir uma imagem diversificada da produção literária de um determinado país e propiciar contactos entre criadores e públicos. E, de facto, Erik Orsenna, com Goncourt e tudo, era um dos autores menos significativos da comitiva, não só porque é muito pouco prolífico (em catorze anos, publicou quatro títulos), mas, sobretudo, porque nunca ultrapassou um valor literário mediano.
 
Traduzir e editar um romance como A Vida Como Em Lausanne pareceu-nos, assim, um trabalho com muitas possibilidades de se tornar inglório. O projecto narrativo deste romance é, por si só, já estreito e perigoso: retratar a mediocridade existencial de certa camada dirigente da actual República Francesa, utilizando por eixo o percurso de um político centrista que descobre, como paradigma de vida, os valores cinzentos de uma cidade como Lausanne.
 
Tudo isto é, obviamente, estereótipo; mas, ainda assim, poderia dar origem a uma panorâmica balzaquiana da presente sociedade francesa. Em particular, se tivermos em conta que o referido percurso se inicia, antes da I Guerra Mundial, com os ambiciosos desígnios poéticos que a mãe, ainda na concepção, projecta para o futuro político, e se desenrola, entre amores abúlicos e carreiras fracassadas, ao longo de todos os grandes acontecimentos por que passou a França contemporânea.
 
Para que tal sucedesse, seria necessário, porém, que o autor não perspectivasse, utilizando um humor muitas vezes de gosto duvidoso, as situações e as personagens de forma redutora e caricatural. Esse olhar desfigurante, que o autor lança sobre todas as personagens (mesmo sobre aquelas que pretende tratar de forma benévola, como são os casos da mãe da personagem principal ou da única paixão por esta nomeada), faz com que a mediocridade alastre como uma pasta gelatinosa sobre os movimentos sociais e políticos que deram corpo à França deste século, transformando-os num cortejo carnavalesco de factos e figuras. Por outro lado, não se vislumbra no romance outro fio condutor que não seja uma permanente deriva entre esses factos históricos, integrados, por vezes de forma forçada, na história individual da personagem principal.
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A utilização constante da elipse e uma minuciosa fundamentação histórica, bem reveladora da dimensão profissional com que Erik Orsenna entende o trabalho literário, são os principais méritos de A Vida Como Em Lausanne. Mas uma tradução literal em excesso e uma pontuação descuidada fazem com que o texto em português se torne muito confuso e, por vezes, absurdo. Além disso, a inexistência de um correcto trabalho de edição que esclarecesse, através de notas de rodapé, as infinitas alusões e referências ao mundo cultural, social e político francês, faz com que este romance se torne ilegível ou, pelo menos, bastante insignificante para o nosso leitor comum.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: A Vida Como Em Lausanne
Autor: Erik Orsenna
Tradutor: Franco de Sousa
Editor: Editorial Estampa
Ano: 1990
268 págs., € 3,00



domingo, 13 de agosto de 2017

MARCEL SCHWOB

 
 
VIDAS FUGAZES
 
Há escritores que parecem, encarados a partir dos dias de hoje, ter passado clandestinos pela escrita, mas que têm o condão de transformar em magia tudo o que tocam. O leitor, que os descobre, cria o hábito e o gosto de os guardar no seu guarda-jóias como se fossem o seu mais precioso património, Um destes casos, para muitos leitores (é o caso de André Breton, grande especialista na descoberta destas preciosidades), é o de Marcel Schwob.
 
Este homem, no seu frenesim de conhecer, dedicou-se um pouco a tudo, conseguindo quase sempre atingir um grau original de reflexão e dificilmente classificável nas categorias do seu tempo. Estava-se no final do século passado e esta avidez diletante era bem vista e apreciada. Porém, é inegável que a sua atitude contribuiu de forma significativa para diversificar os gostos estéticos numa França que, do alto do seu pedestal cultural, tem sempre tendência para se isolar.
 
Em boa hora, a Teorema resolveu traduzir e editar um dos livros mais fascinantes deste autor: trata-se de Vidas Imaginárias, um conjunto de biografias ficcionadas de personagens reais, míticas e inventadas.
 
Como o próprio autor explícita no prefácio desta obra, estas breves “vidas” apresentam-se como entidades únicas, onde cada gesto, sinal físico, afecto ou emoção tem um valor simbólico obscuro, perturbante, que nos obriga a questionar sobre o sentido do universal. Nada fica explicado ou esclarecido sobre estas vidas; pelo contrário, grande parte da vertigem que se tem ao ler estas pequenas histórias advém das perguntas que elas nos obrigam a formular: que sentido tem cada existência? Que quer dizer o termo “vida”, quando encaramos este formigueiro de seres, de partículas, que o tempo continuamente devora?
 
Esta edição refere na contra-capa que este tipo de biografias teve um excelente continuador em Jorge Luís Borges. É certo; no entanto, a preciosidade fantasista destas fugazes “vidas” dá-nos hoje a ilusão de que foram escritas a duas mãos: uma delas enluvada por Yourcenar, outra por Pieyre de Mandiargues.
 
Publicado no Público em 1990.
 
  
Título: Vidas Imaginárias
Autor: Marcel Schwob
Tradução: Telma Costa
Editor: Teorema
Ano: 1990
141 págs., esg.
 
 



terça-feira, 15 de novembro de 2016

RAYMOND GUÉRIN

 
 
 

TOUT DIRE
 
Uma preocupação ferocíssima de sinceridade, eis o que apetece afirmar de imediato sobre a obra de Raymond Guérin. E, de tal modo premente, que revolvia o seu modo de escrever: este ficava sujeito, em termos estilísticos, a essa necessidade de rasgar os enquadramentos éticos com que a literatura, até então, procurava, pretensamente, revelar o “real”. Era, para utilizar uma expressão do próprio autor, o desejo de “tout dire”.
 
Uma ansiedade comum que movia também, por outra via, a produção literária dos seus amigos, mais afortunados, Curzio Malaparte e Henry Miller. Mas o público seu contemporâneo — Raymond Guérin viveu entre 1905 e 1955 e a maior parte dos seus livros saíram no período logo após a II Guerra Mundial — etiquetou, a tentativa do autor de instaurar um realismo mais intenso, de “sórdida” e “obscena”, não entendendo esse seu projecto de reinscrever a realidade numa perspectiva mais orgânica, mais visceral, em suma, mais corporal. E rejeitou a sua obra, rodeando-a de silêncio e esquecimento.
 
Além disso, o leitor coevo de Raymond Guérin também não entendeu que esse afrontamento da realidade, rompendo as conveniências éticas e estilísticas, tinha um outro objectivo: conseguir retirar da narração dos perfis contextualizados em situações-limite os arquétipos necessários para delinear um novo “corpus” mítico. Nesse sentido, o seu último romance, Les Poulpes, ao ficcionar a sua experiência nos campos de prisioneiros de guerra nazis, onde passou três anos, é, no pessimismo trágico das situações descritas, o que mais corresponde aos seus parâmetros estéticos.
 
Por isso, as personagens a que Raymond Guérin dá voz e fala em A Pele Calejada, agora apresentada ao leitor português numa excelente tradução de Luiza Neto Jorge, vão confessando-se como meros corpos vivos, fazendo a sua aprendizagem mortal do destino. Personagens mal nomeáveis, negações da excepção: as mesmas, cujos gestos e voz, Viviane Forrester considerava, num belíssimo e recente livro, La Violence du calme, como grãos da poeira sussurrante que faz a História e o tempo.
 
Clara, Jaquina, Luísa. Três irmãs, três corpos de mulheres, cuja pele ainda estremece com o sofrimento, ainda não calejou (calejar a pele era o argumento do pai para justificar a pancada que lhes dava), que se esquivam, como podem e sabem, à malha de morte que lhes querem fazer vestir: a fome, os ritmos desenfreados de exploração, a repressão judicial, o amor sem desejo, os filhos não queridos, os abortos, a doença.
 
Mas presas acossadas, desarmadas pelo querer dos outros. Que as vampiriza: pais, patrões, polícias, juízes, amantes. Forçadas, desde a infância, a só reconhecerem a sobrevivência como modo de estar, impelidas para a marginalidade, como se fosse inerente â sua condição de mulher tudo o que lhes irá acontecer.
 
Estas figuras femininas, sobressaídas do silêncio ruidoso destas páginas, pretendem não ser apenas “voz”, mas “deusas”, representando um exército de sombras que o silvo do tempo teima em silenciar e que Raymond Guérin procura, com o desespero da palavra escrita, manter, a todo o transe, os contornos do rosto e do corpo.
  
A partir de um texto publicado no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias em 1982.
  
Título: A Pele Calejada
Autor: Raymond Guérin
Tradução: Luiza Neto Jorge
Editor: Assírio & Alvim
Ano: 1982
96 págs., esg.
 
 
 


quinta-feira, 21 de julho de 2016

JACQUES ABEILLE

 
 
 

A SEDA SENSUAL DA PALAVRA
 
Por vezes, “descobrir” um autor é resultante da constatação de que ele está no centro ou, pelo menos, num ponto de conexão de “afinidades electivas” de criadores (literários, artísticos) que já foram por nós referenciados.
 
Foi assim que, no meio do magma de informação em que vivemos mergulhados, o nome de Jacques Abeille começou a evidenciar-se, nas minhas prospecções, como identificando um narrador muito peculiar.
 
“Descobri” que Jacques Abeille tinha sido amigo chegado de Pierre Molinier (1900-1976), um pintor e fotógrafo surrealista um pouco obscuro (passou toda a sua vida em Bordéus, bem longe dos círculos mundanos de produção artística) e que, como muitos outros de orientação estética semelhante, imbricou profundamente a existência com a sua produção artística. De facto, há muito que este artista era para mim uma figura intrigante e fascinante, não só pela sua vida, mas em particular pela sua obra (iniciada já tarde, com mais de cinquenta anos) obsessivamente erótica e fetichista (raros sãos os seus quadros figurativos, ou, mais tarde, as suas fotos, em que não surjam jogos de “entidades femininas”, vestidas apenas de meias negras e cinto de ligas, constituindo, uma boa parte deles, auto-retratos em que aparece “travestido”), sempre a questionar as fronteiras entre arte e pornografia, que foi muito elogiada por André Breton e que é hoje considerada como percursora da “body art”.
 
Mas foi devido a Bernard Noël, um dos poetas contemporâneos franceses mais interessantes e um intelectual que tem procurado articular uma exigente intervenção cívica com uma contínua reflexão sobre o fenómeno artístico e sobre o efeito social e histórico-literário do acto de escrever, e alguns dos seus textos de louvor e entusiasmo pela narrativa de Jacques Abeille, em particular do seu romance Les Jardins statuaires, que em definitivo fiquei interessado por conhecer a sua obra.
 
Jacques Abeille é, mesmo em França, muito pouco conhecido e referido: há poucas análises da sua obra nos suplementos literários e nos espaços públicos dedicados à literatura em França; é um autor que tem a sua narrativa dispersa em diversas chancelas editoriais, todas elas pequenas; que nunca obteve nenhum importante prémio literário, etc. Creio que o estatuto um pouco marginal de Jacques Abeille no sistema literário francês se deve à sua proximidade ao universo surrealista (ser próximo desta corrente estética e literária não é, hoje, grande referência - e ainda muito menos se aparece com o estatuto de narrador) e ao facto da sua obra ser apontada como obscena e erótica em excesso.
 
 Qualquer uma destas etiquetas (obra surrealista, obra obscena) exigiria, só por si, alguma reflexão no caso da produção literária de Jacques Abeille. No entanto, tem de se concordar que o autor dá muita importância ao elemento erótico, chegando mesmo ao ponto de, com o pseudónimo de Léo Barthet, redigir romances e novelas onde assume abertamente essa componente (e aí, sim, até a componente pornográfica), procurando conjugar os efeitos – a nosso ver, inconciliáveis - da emoção pornográfica com a emoção estética.
 
Pode dizer-se, procurando definir uma geografia literária para Jacques Abeille, que o universo da sua narrativa se encontra confinado (e contaminado) pela produção de Georges Bataille e André Pieyre de Mandiargues (outro esquecido…), por um lado, e de Julien Gracq e Dino Buzzati, por outro. O quadrilátero literário assim delimitado é ocupado por cerca de duas dezenas de obras narrativas (a que se deve acrescentar alguns títulos de colectâneas de poesia e de ensaios, estes últimos nos domínios das artes plásticas e da história da arte, pois Jacques Abeille é também pintor), onde se destaca o conjunto de romances e novelas que o autor intitulou Le Cycle des contrées, composto pelo já referido Les Jardins statuaires (1981), Le Veilleur du jour (1986), En mémoire morte (1992) e Les Carnets de l’explorateur perdu (1993), ou ainda alguns subscritos por Léo Barthet, como Histoire de la bonne (2002) ou Camille (2005).
 
Entre os títulos deste autor, é apontado, de forma consensual, pelos críticos e analistas da sua produção literária, como a sua obra-prima, o seu romance inicial, Les Jardins statuaires. E foi por ele que resolvi iniciar-me na leitura da sua obra.
 
Creio que já se percebeu que uma outra etiqueta, com que é habitual classificar-se a obra de Jacques Abeille, é o de “literatura fantástica”: de facto, como sucede neste tipo de literatura, o autor procura, em Les Jardins statuaires, criar um universo próprio, autónomo. Porém, a originalidade começa logo na forma como o faz: depois de uma página inicial onde se explana uma reflexão sobre a forma do espaço (uma árvore que expande os seus ramos pelo céu), aparece, de imediato, um viajante/narrador que se encontra à entrada do “país dos jardins das estátuas”…; nada se expõe sobre a forma como lá chegou, de onde veio, porque motivos desconhece este país e os mundos limítrofes - simplesmente “aparece”. Depois, o autor vai desenvolvendo e construindo Les Jardins statuaires em constante “trompe l’oeil” entre o universo reconhecível pelo leitor e o universo específico da obra, como se esta se procurasse a pouco e pouco libertar e autonomizar. No fundo, parece que o próprio romance, no seu desenrolar, pretende espelhar o seu esforço titânico para criar um universo próprio.
 
Não vou, como é óbvio, nem perto nem de longe, desvendar a trama de Les Jardins statuaires. Só quero referir, na coerência do que foi exposto no parágrafo anterior - e para aguçar o apetite do leitor pela ambiência da obra -, que o viajante/narrador, numa primeira parte, vai introduzindo-se cada vez mais no interior deste país “gerador de estátuas”, revelando não só a estranha configuração espacial desta terra, mas também a peculiar organização social dos seus habitantes, assim como os seus invulgares hábitos; na segunda parte, o percurso do viajante/narrador é em sentido inverso, deslocando-se para as fronteiras deste “país” e desvendando como a sua relativa harmonia se encontra ameaçada por “turbas bárbaras” que, com outros valores, poderão desfazer a frágil imobilidade desta organização social.
 
Assim, o leitor não só percebe que os “jardins” (com os seus áreas de produção, os seus armazéns, as suas habitações - em particular, os gineceus, onde as mulheres vivem em clausura e afastadas da “criação” de estátuas) estão no centro desta organização social, como descobre que existem outras estruturas periféricas e complementares, com funções de “descompressão” (é o caso das estalagens, com os seus “patrões” e as suas “criadas”) ou de registo e memória (é o caso dos homens-livros e as respectivas “bibliotecas”), etc.; e, por fim, como a própria sociedade se modela em função do milagre da “criação” das estátuas e da sua transcendente beleza ou, pelo contrário, das suas doenças e das suas perigosas aberrações…
 
Como se pode perceber por aquilo que já foi referenciado, pouco ou quase nada se encontra de descrições eróticas ou pornográficas em Les Jardins statuaires. Mas, de uma forma estranha, perpassa nas suas páginas uma constante sensualidade que contagia toda a narrativa (em particular, as descrições sobre a forma como se vão gerando as estátuas e o seu aparecimento no granuloso chão dos jardins). E é neste aspecto que se torna evidente a magnífica arte narrativa de Jacques Abeille: de facto, deriva do seu próprio estilo a sensualidade constante de toda a sua obra - mais do que das suas descrições eróticas ou pornográficas.
 
Porém, talvez seja também resultante desta obsessão descritiva o principal defeito, a nosso ver, de Les Jardins statuaires: a sua dimensão. Por vezes, a necessidade de Jacques Abeille em revelar de forma exaustiva este país e a sua ambiência peculiar origina que o romance se torne, aqui e ali, um pouco repetitivo, justificando-se, por razões de economia narrativa, algum trabalho editorial.
 
Publicado na web em 2008.
 
 
Autor: Jacques Abeille
Título: Les Jardins statuaires
Editor: Joëlle Losfeld
Ano: 2004
398 págs., 23,00 €
 
 
        
 


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

FÉLICIEN MARCEAU

 
 
 
TEMPOS (APARENTEMENTE) LIGEIROS
 
Desde há alguns anos a esta parte que se generalizou a opinião de que o romance francês está em crise. Que, depois do “nouveau roman”, só um ou outro autor, já consagrado nos anos cinquenta ou sessenta e, por isso, com percursos literários esfumando-se actualmente na linha do horizonte, permanece importante. Que não há novos valores, que a mediocridade campeia, que se tornou uma das literaturas europeias mais desinteressantes nos dias de hoje.
 
É difícil ponderar estes juízos. Talvez assim seja, de facto. Mas, de qualquer modo, parece estranho que a literatura francesa, depois de ter tido um papel tão hegemónico e basilar na definição de gostos e tendências, tenha sombreado em tal apatia.
 
Em termos pessoais, duvido desta imagem que se faz da literatura francesa. Creio que o motivo desta “aparência” está na dimensão luxuriante do mundo editorial e literário francês. Isto é, este meio, repleto todos os dias de novos títulos, de prémios literários, de jovens autores, de diversas “saisons”, de casas editoras em permanente competição comercial, de revistas e publicações periódicas revelando constantes “genialidades”, tomou tais dimensões (só ultrapassado pelo universo editorial americano que também dá imagem semelhante de si mesmo), estabeleceu-se a tal ponto e definiu tão rigorosas “hierarquias” que provocou a “perdição” dos próprios produtores e analistas desse meio. Por isso mesmo, de forma permanente, se vê destacar obras literárias de facto inovadoras ao lado de outras que apenas são evidenciadas em consequência do labirinto de espelhos, de reverências irremediavelmente obrigatórias, que os “responsáveis” do meio literário francês criaram entre si.
 
 
O caso de Félicien Marceau é bem típico de tudo isto. De origem belga, este autor começou a publicar no finais da década de quarenta, impondo à sua obra um constante realismo balzaquiano, certeiro para efectuar um diversificado retrato dos costumes actuais franceses e para fazer, aqui e além, uma sortida também no romance histórico, temperando-o com um mais ou menos diáfano erotismo, muito sedutor e envolvente. Senhor de um estilo hábil e “humorado”, Félicien Marceau foi, pacientemente, elaborando uma obra já vasta em títulos, sempre sustentada por um quase ininterrupto sucesso de vendas e por um caloroso louvor crítico (a título de exemplo refira-se que Félicien Marceau já ganhou o Goncourt com Creezy, há já alguns anos traduzido para português). Tornou-se, deste modo, um autor respeitado e uma das mais elevadas referências no meio literário francês; mas ninguém poderá afirmar que Félicien Marceau, mesmo tão credenciado, tenha alguma vez produzido uma obra-prima ou que, seja de que forma for, tenha contribuído para a renovação das estruturas romanescas.
 
As Paixões Partilhadas, o seu último título, de imediato traduzido para português, não só evidencia bem esta mediania, como nada acrescenta de significativo à sua obra.
 
A acção do romance centra-se na descrição da vida de um casal, instituído nos anos trinta, e constituído por Cédric de Saint Damien, descendente de uma antiga família aristocrática do Languedoc, e Emmeline Ricou, filha de um grande comerciante, rapidamente enriquecido com a lª Guerra Mundial. Ao longo de vinte e nove capítulos, vemos como esta família, fundada nos valores aristocráticos, vai adequando o seu comportamento a um mundo adverso, abrindo as suas relações de amizade, criando imprevisíveis cumplicidades com o seu pessoal doméstico, instituindo um jogo amoroso que em silêncio admite os deleites das “fugas” à conjugalidade, e, enfim, como, de uma forma ao mesmo tempo convicta e leve, se vai esquivando aos espectros negros que a História lhes vai colocando no seu destino.
 
Sem sombras de dúvida que As Paixões Partilhadas pretende perpassar uma ligeireza que, a seu modo, reflecte uma alegria luminosa de viver e o prazer sereno dos pequenos gestos que provocam mudanças profundas nos modos de estar. No entanto, sendo um romance de fácil e até agradável leitura, não deixa de transmitir ao leitor a convicção de que toda a motivação que lhe deu origem é eminentemente fútil. Não será este romance, tão louvado pela crítica local, a prova cabal de que existe uma “mecânica perversa” no meio literário francês?
 
 
Publicado no Expresso em 1988.
 
 
Título: As Paixões Partilhadas
Autor: Félicien Marceau
Tradutor: Fernanda Pinto Rodrigues
Editor: Gradiva
Ano: 1988
221 págs., 8,56 €
 



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

JOYCE MANSOUR

 



A IRRUPÇÃO VIOLENTA DA CARNE

 

Há certos textos que são puras casas de alucinação, onde se atravessa a beleza fulgurante e a mais repugnante imagem, o sentido mais obscuro e a metáfora rude, como se nada dominasse o discorrer da palavra e esta fosse movida por uma energia insensível e brutal que se distendesse de um modo autónomo pela página.

 
É este perturbante “rosto” que nos deixa a leitura desta narrativa poética, Júlio César - História Nociva, de Joyce Mansour, uma poetisa francesa, nascida em Inglaterra, mas de origem egípcia, que pertenceu ao grupo surrealista de André Breton na década de cinquenta, quando ele já se desmembrava e perdia ímpeto e sentido.

 
Joyce Mansour, logo com os seus primeiros textos publicados, se revelou como a mais interessante poetisa surrealista da sua geração: uma escrita de uma violência radical, com uma componente imagética obcecadamente sexual e com a capacidade de desvendar a fantasmagoria universal através de metáforas dilacerantes. Poucas vezes, de facto, a poesia de origem surrealista conseguira, como, por exemplo, na colectânea Rapaces, semelhante acutilância em “tocar o horror” de forma a transfigurá-lo.

 
Júlio César - História Nociva, possuindo as virtualidades metafóricas da restante poesia de Joyce Mansour, não consegue atingir a mesma intensidade, em específico pela “quebra” que provoca certa irregularidade nos seus parâmetros estéticos. No entanto, esta narração do processo de formação de dois gémeos e da sua relação com a ama, a personagem de nome intrigante que intitula este breve texto, consegue aproximar-se da dimensão mítica, principalmente por se concentrar na enunciação dos “pontos críticos de crescimento”. A voracidade dos gémeos a matar a figura divina, recriando-a como um acto lúdico, e a irrupção sangrenta da sua sexualidade são associadas, de forma metonímica, a cataclismos propiciatórios da dissolução final: e é a carne, por fim, como flor escatológica, húmida e esponjosa, que revela a precaridade nocturna e assassina da sua raíz - o orgasmo.

 
Este texto de Joyce Mansour, trazendo-nos à lembrança alguns poemas de Sylvia Plath, tem a força arrogante de desbastar campos novos da sensibilidade: ficará como um cristal mal facetado, mas possuidor de uma luz que deslumbra a memória dos sentidos. E não há dúvida que é a edição de textos como este Júlio César - História Nociva que dá o lugar certo no mercado livreiro a uma editora que se denomina Hiena.

 

Publicado no Expresso em 1987.

(Foto da Autora de Gilles Ehrmann).

 

 
Título: Júlio César – História Nociva
Autor: Joyce Mansour
Tradutor: Aníbal Fernandes
Editor: Hiena Editora
Ano: 1987
45 págs., esg.



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

SIMONE DE BEAUVOIR

 
 
 

SINAIS DE LUTO
  
O tempo passa. Vamos vivendo, amando, lutando, empolgando-nos e desistindo, e, de repente, olhando para o lado, descobrimos um objecto que nos faz ter consciência, emocionados, deste facto óbvio. Este livro, A Cerimónia do Adeus de Simone de Beauvoir, é um desses objectos. Ainda perplexos, com ele tomamos consciência de um facto já conhecido e público: Sartre e Simone de Beauvoir morreram.
 
Durante mais de trinta anos, habituámo-nos a procurar saber o que é que o casal Sartre/Beauvoir pensava sobre as situações que íamos vivendo, até sobre os problemas mais pessoais e íntimos que nos inquietavam. Quer concordássemos ou não, quer entendêssemos ou não, o pensamento deste casal era sempre uma referência necessária para orientarmos a nossa forma de pensar e agir. E talvez não seja abusivo dizer que quase todos os que se preocuparam com questões de ordem ideológica, que procuraram ter posicionamentos claros sobre os homens e o mundo, foram, mais ou menos, directa ou indirectamente, influenciados pelo modo de pensar e agir deste casal. Em termos pessoais, não tenho a menor dúvida de o afirmar.
 
Este livro descreve, no essencial, o processo crescente de doença e morte de Sartre. Resume-se a um mero diário dos últimos anos da sua vida, concebido com o intuito de pormenorizar a evolução do seu estado de saúde, e a um longo diálogo feito principalmente com o objectivo de o manter ocupado na fase inicial do seu processo de cegueira.
 
De certo modo, A Cerimónia do Adeus nada acrescenta à obra de Simone de Beauvoir e pouco mais esclarece sobre a personalidade complexa de Sartre. É um mero epílogo. Mesmo assim, é o diálogo que poderá suscitar mais interesse, em particular porque foi quase sempre orientado para revelar o seu comportamento quotidiano e o modo como Sartre se entendia e assumia (e assim faz referências à sua infância e adolescência, como nele apareceu a filosofia e a literatura, como organizava o seu dia a dia entre elas, como encara o seu corpo e a sexualidade, as relações de amizade, a idade, etc.). E neste aspecto, é aliciante perceber como a existência “prática” de Sartre vai transformando, condicionando e “forçando” as suas formulações teóricas (saliente-se, por exemplo, como Sartre vai dando importância crescente à noção de contingência e o desenvolvimento que foi tendo, na sua filosofia, a noção de liberdade).
 
No entanto, convirá ter sempre em consideração que este livro, enquadrando-se no âmbito da literatura biográfica e autobiográfica (como um número significativo de obras desta autora), vive forçosamente a sua contradição maior entre urna necessidade de representação do autor para si próprio (e para os outros) e uma exigência de sinceridade, determinando assim uma estratégia de escrita, de omissões e de ênfases, que, ao contrário do que se possa crer à primeira vista, exige do leitor um apurado sentido crítico. Mas esse é também um dos motivos de prazer que poderá encontrar neste tipo de literatura que, em Portugal, de um modo intrigante, e em contraste com a França, tem diminutos cultores e uma restrita popularidade.
 
Publicado no Expresso em 1986.
 
 
Título: A Cerimónia Do Adeus
Autor: Simone de Beauvoir
Tradutor: Helena Leonor M. dos Santos
Editor: Bertrand
Ano: 1986
393 págs., esg.