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terça-feira, 14 de junho de 2016

STIG DAGERMAN 2


ATINGIR O CORAÇÃO DO MUNDO
Todos nós conhecemos histórias de suicidas. São gente de carreira breve e obstinada. Mas, nos casos mais convictos, geralmente bem sucedida. Quem os conheceu sabe que o seu olhar tem a dureza de quem descobriu qualquer “certeza inatingível”, porque veio do lado invivível. Face a eles, pode usar-se da retórica. Mas fica-se sempre inábil: mais vale esperar que regressem a uma outra certeza mais tangível, mais cutânea, mais terrena e, desse modo, ponderem que, para lá de tudo, é sempre melhor mudar de carreira.
Stig Dagerman tem fama de ser um escritor suicida. Criou, por isso, uma auréola de radical santidade. E, por outro lado, contribuiu para generalizar a convicção de que os suecos são um povo de suicidas. Mas é urgente assinalar que esta fama é lamentavelmente redutora. Porque Stig Dagerman é só um dos mais perturbantes e complexos escritores do pós-guerra.
O pequeno livro agora publicado, A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer, parece, pelo título, confirmar essa imagem que se criou do escritor. De imediato, o título retém: pressente-se que entramos numa zona limite, de grau zero, onde a literatura ainda não é possível devido à intensidade da dor. E que a escrita está aqui na sua função primeira, ancestral: a de registar o grito.
Abre-se o livro e percebe-se que é oriundo das enevoadas (e sempre presentes) paragens da morte. E, por isso mesmo, inconsolavelmente optimista.
Sabe-se da morte e ela enche de negrume tudo. Não há, de facto, consolo possível. Mas vive-se, ama-se, escreve-se, luta-se. Porque sabe-se também que, mesmo nas dependências que nos fazem ver o que não há, existem fulgores. E que eles nada têm a ver com o tempo, esse monstruoso inimigo.
Por isso, descobre-se a beleza. Aquela que nos faz os gestos certos, soberanos. Aquela que cria o logro do divino em nós. E escreve-se: “Nem a vida é mensurável, nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana - força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz – mas preservando a sua liberdade.”
E descobre-se a liberdade. Mas tudo a afasta: em primeiro lugar, a nossa consciência que nos desloca da serenidade da Natureza; em segundo lugar, os outros que nos desconhecem e quantificam. Por isso, temos o imenso consolo da luta. Por um lugar primordial na Criação. Por um destino inqualificável entre destinos únicos e partilháveis. E escreve-se: ”E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se sempre pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será ilimitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo. É este o meu único consolo.”
Como fazer uma recensão a um livro destes? Não sei. Ou melhor, sei: escrevê-la como se escreve uma missiva de solidariedade a quem, no meio das poucas certezas, soçobrou numa incerteza derradeira. E transmitir-lhe de uma forma tardia uma certeza inútil: a de que um encontro com páginas como estas é ainda um consolo possível e necessário. Que, de facto, as suas “palavras tocaram o coração do mundo”.
Publicado no Expresso em 1989.
Título: A Nossa Necessidade De Consolo É Impossível De Satisfazer
Autor: Stig Dagerman
Tradutor: Paula Castro e José Daniel Ribeiro
Editor: Fenda Edições
Ano: 1989
28 págs., esg.




sábado, 31 de outubro de 2015

MARIANNE FREDRIKSSON


 
 

HISTÓRIAS SENTIMENTAIS

 
Quem tem acompanhado o percurso no último século da literatura sueca sabe que a sua narrativa, durante os anos cinquenta a setenta, foi dominada por preocupações sociais e políticas. Essa corrente, habitualmente conhecida, talvez com um pouco de ironia, com o nome de “literatura proletária”, teve tal ascendente neste país (pode dizer-se que não houve literatura de nenhum outro país do Ocidente onde estas preocupações fossem tão hegemónicas) que levou, os mais pessimistas, a recear que a literatura, na sua concepção mais abrangente, tivesse definhado de todo na Suécia. É evidente que esta obsessão literária com as questões sociais e políticas tem razões culturais e geoestratégicas; porém, deixando de lado a questão falaciosa de compreender a motivação desta atitude ideológica e estética, é inquestionável que corresponde à generosidade e abertura que o povo sueco tem revelado, na segunda metade do séc. XX, em favor dos que, por razões políticas, têm sido oprimidos e perseguidos em todo o mundo. De qualquer modo, foi só a partir dos finais da década de setenta que apareceu uma geração literária com outros interesses temáticos, retomando a tónica de uma maior reflexão sobre as especificidades do discurso literário e mais empenhada na compreensão das complexidades dos universos sensíveis do homem contemporâneo.

 
Marianne Fredriksson, a autora de Duas Mulheres, Um Destino (versão portuguesa, francamente banal, de um título, cuja tradução literal teria, na nossa opinião, mais intensidade poética), pertence - a autora começou já tarde, com perto de sessenta anos, a sua actividade literária - à transição entre as duas gerações referidas. Depois de uma vida dedicada ao jornalismo, Marianne Fredriksson conseguiu obter na última década um inegável sucesso popular e crítico com a sua produção romanesca. Hoje, com mais de doze títulos publicados, a autora não só é considerada uma das figuras de maior relevo editorial e literário no seu país, como a que tem maior projecção internacional, estando já traduzida e publicada em cerca de 150 países.

 
Este enquadramento talvez ajude a compreender a obra desta autora, em particular o seu interesse pelo percurso histórico das mulheres na sua luta pela emancipação e pela afirmação cultural, social e política: saliento, por exemplo, o seu romance mais conhecido (e também já editado pela Presença), As Filhas de Hannah. O presente romance, Duas Mulheres, Um Destino, apresenta-se, de certo modo, como uma pequena variante à problemática do anterior. Aqui, as personagens centrais são duas mulheres, já na terceira idade, vivendo sozinhas na Suécia, mas que têm uma origem geográfica e um universo cultural bem distintos: uma, como a autora, é sueca, vivendo da sua produção literária; a outra, chilena, exilada, depois de ter fugido às perseguições políticas perpetradas no seu país após o golpe militar que derrubou Salvador Allende.

 
Este esquema narrativo, simples e já muito visto, permite a autora demonstrar duas coisas na aparência contraditórias: por um lado, revelar que existe uma certa “malaise de vivre”, resultante do actual estatuto da condição feminina, seja quais forem as circunstâncias históricas, económicas e culturais que condicionam as experiências de vida e as atitudes comportamentais; por outro, que a História, de forma inevitável, irrompe na esfera do privado, condicionando afectos, originando obsessões e fobias, arrastando para profundas mágoas ou propiciando comoventes alegrias. No fundo, é como se os fluxos da história social e da história pessoal fossem as duas faces do mesmo manto de água, correndo para a inevitável foz da morte e tornando qualquer existência ao mesmo tempo única e irrelevante.

 
Aparentemente, portanto, parece que a obra de Marianne Fredriksson se enquadra na chamada literatura feminina (ou, aceitando um jargão demasiado conotado, femininista). Porém, creio que não é neste facto que assenta o sucesso editorial desta autora. Os motivos deste sucesso prendem-se, a nosso ver, com a tentativa da autora em definir as suas personagens, numa perspectiva estritamente emotiva e sentimental, apegada à sua experiência privada e como, nesta esfera, se “defendem” dos condicionalismos, mais ou menos violentos, da História, soberanizando-se em termos emocionais. No fundo, a escritora parte da convicção – bastante generalizada na sua geração – de que só existe progresso social resultante do conjunto das “libertações individuais” e do afrouxamento das diversas dependências pessoais, num quadro ideológico que é uma resultante hibrida de progressismo social e político e de ética cristã.

 
É inquestionável que Marianne Fredriksson consegue transmitir alguma convicção romanesca nesta sua tentativa de “olhar” a História, sem nunca abandonar o nível das histórias pessoais. Simplesmente, nesta tónica de definir as suas personagens pelos seus contornos sentimentais e emotivos existe o perigo da sua produção narrativa resvalar para uma “pieguice” ludibriante (em Duas Mulheres, Um Destino, sem dúvida um dos menos conseguidos desta autora, há, por vezes, algumas situações que raiam o mau-gosto e que parecem entrar nos parâmetros do subproduto narrativo a que os norte-americanos chamam as “romance novels”). Daí, o esforço da autora, nas suas melhores páginas, em conter-se, em termos estilísticos, num registo sóbrio e seco, pouco adjectivado, e, paralelamente, em estruturar a narrativa em graduações de doseamento dramático que permitam reter a atenção do leitor.

                                                          
Publicado no Público em 2002.
 
 
(Foto da Autora de Anne Fredriksson)
 

Título: Duas Mulheres, Um Destino
Autor: Marianne Fredriksson
Tradução: Margareta Ek Lopes
Editor: Editorial Presença
Ano: 2002
211 págs., esg.

 





domingo, 27 de setembro de 2015

STIG DAGERMAN 1

 
 
 
 
 

O MEDO DO MEDO

 
Quando se procura situar, cultural e literariamente, um escritor como Stig Dagerman, é forçoso esboçar uma geografia literária que não se tem muitas vezes em consideração. É evidente que este autor, em termos de sensibilidade e tipificação estilística, vai “beber” a uma tradição literária sueca que desemboca no ponto de charneira que é a figura de August Strindberg. Porém, esse caudal literário, em muitas das suas variantes, aparece como uma ponta estrelar de uma constelação que tem o seu centro nas manifestações mais salientes da cultura literária alemã, situadas entre os finais do séc. XIX e o início da década de cinquenta do séc. XX - e que, de certo modo, vive sob ou em redor da sombra tutelar dessa outra personagem determinante da cultura ocidental contemporânea que é Friedrich Nietszche.

 
Situando-se nesta tradição, deve ter-se também em consideração o perfil dos autores suecos mais significativos pertencentes à geração anterior ou mesmo coevos de Stig Dagerman (Pär Lagerkvist, Hjalmar Bergman, Agnes von Krusenstjerna, Arthur Lundkvist, Harry Martinson, Eyvind Johnson e Gunnar Ekelöf), onde já perpassa uma profunda inquietação com o sentido da condição humana, resultante quer da angustiante confrontação com a morte e, por consequência, com a presença ausente de Deus, quer na relação com o Outro, e com uma crescente preocupação com a problemática social, para pereceber a experiência literária, excepcionalmente radical, que é a obra deste autor.

 
Antes de se avançar para a análise de A Serpente, a primeira obra de Stig Dagerman, publicada em 1945, e a última a ser traduzida e editada no nosso país, é de toda a justiça realçar o trabalho da editora “Antígona”. De facto, não é vulgar no nosso meio observarmos o esforço de um editor em publicar a obra ficcionista de um autor pouco conhecido de uma literatura periférica e, ainda por cima, não só com traduções cuidadas, como é o caso da obra agora publicada, mas também acompanhadas de estudos contextualizadores de inegável qualidade (o Posfácio de C. G. Bjurström desta edição de A Serpente é um excelente estudo interpretativo de toda a obra de Stig Dagerman, imprescindível para quem por ela se interessa). É, sem dúvida, um caso de paixão - como deveria sempre ser tudo o que é edição, se o mundo dos livros não fosse, helas!, também um comércio. Mas, de qualquer modo, reflecte também um dado conhecido: a obra de Stig Dagerman costuma originar estes casos de paixão, existindo quase um “clube de iniciados” que a divulga aos amigos como se fizesse dessa informação um acto de dádiva e afecto.

 
Um factor que contribuiu para a auréola mítica de Stig Dagerman foi a velocidade-relâmpago da sua carreira literária. De facto, com 22 anos, publicou a sua primeira obra e, em 1950, o seu derradeiro livro. Depois de quatro anos quase estéreis e improdutivos, suicidou-se. Tinha 31 anos. E, mal se começa a ler a sua obra, percebe-se que existia qualquer coisa de irremediável neste destino, dada a sua coerência radical.

 
A Serpente é uma obra híbrida e um pouco inclassificável. Aparentemente, parece tratar-se de uma colectânea de contos, iniciada com uma novela longa. Mas, na sequência da sua leitura, percebe-se que algumas personagens, a ambiência e alguns elementos simbólicos aparecem como obsessões recorrentes de narrativa para narrativa. Em resumo, A Serpente é um romance que, aproveitando-se, da maleabilidade do conto, permite fragmentar a unidade temporal, desenvolver personagens que noutras histórias tinham um papel secundário ou elementos simbólicos que apareciam primeiramente com uma importância lateral.

 
Esta própria estrutura(?) romanesca permite evidenciar aquilo que parece ser uma característica de toda a obra de Stig Dagerman: o seu carácter obsessivo. De facto, quem já leu os romances e as peças de teatro deste autor percebe que a culpa, a angústia, o desespero e - no caso concreto de A Serpente - o medo, como manifestações da desagregação de sentido para a existência, aparecem como destroços que emergem, de forma constante, na ondulada maré do(s) texto(s). Por outro lado, as próprias características estilísticas do autor - bem evidenciadas em A Serpente - reforçam esta componente obsessiva: o enfâse constante no encadeamento das metáforas, criando uma ambiência fantasmagórica, desfigurada, de intenso simbolismo, e anulando as fronteiras entre a realidade e a subjectividade, permite tipificar o estilo de Stig Dagerman como uma variante de “expressionismo tardio” e que ele “serve” para realçar a dimensão trágica do deambular existencial das suas personagens.

 
É evidente que a imediata tendência dos comentaristas foi associar o ambiente concentracionário de caserna militar de A Serpente à II Guerra Mundial. No entanto, é também claro que este motivo visa atingir um objectivo mais amplo: o de transmitir uma imagem ontológica em que os contornos da existência aparecem como um espaço fechado donde toda a fuga é efémera e ilusória. E para a caraterização deste sentimento, decisivo para a cultura europeia contemporânea, a obra de Stig Dagerman é um inquestionável marco.

 

Publicado no Público em 2000.

 
(Foto do Autor de Tore Falk).
 
Título: A Serpente
Autor : Stig Dagerman
Tradução: Ana Diniz
Editor: Antígona
Ano: 2000
332 págs., € 7,50

 
 
 

 
 
 



segunda-feira, 15 de abril de 2013

LARS GUSTAFSSON 2




PODEMOS SEMPRE ESPERAR



Há livros que, mal se começam a ler, deixam perceber que se está a tocar algo de essencial. Quer isto dizer que, para lá dos critérios que enformam o seu fabrico - e perante o qual se confronta, por princípio, o juízo crítico -, existe neles um perturbante núcleo que aflora os mistérios da entidade. Está neste caso o romance A Morte De Um Apicultor de Lars Gustafsson, um escritor que é uma das figuras mais influentes da literatura sueca dos últimos trinta anos.

O romance baseia-se, num estratagema muito usual, na compilação de três cadernos onde um apicultor e professor reformado, vítima de um cancro, foi anotando reflexões e considerações avulsas nos seus últimos dias de vida. Mas em poucos romances, com características semelhantes, este estratagema se revela tão eficaz.

A Morte De Um Apicultor começa com a apresentação e a despedida do “narrador” (aqui, tem que se dizer, parece existir um equívoco: quem se apresenta e despede não é o narrador, mas o “editor”, isto é, o responsável pela compilação e ordenação dos referidos cadernos). Percebe-se de imediato que este “Prelúdio” tem um duplo objectivo: primeiro, ficcionar o efeito definitivo que deixou no “narrador” a publicação, mais do que a leitura, dos textos que vão seguir-se; segundo, dar a entender que os textos, onde vai ser introduzido o leitor, são tão radicalmente pessoais que, se a “arte” lá entrasse, efectuaria algo de duvidoso em termos éticos.

Obviamente que esta opção de Lars Gustafsson pode ser questionável e até contestável. De qualquer modo, estas considerações em nada alteram o incómodo impacto dos referidos cadernos.

Estes textos, mais que da morte, tratam da dor. Não de uma dor abstracta ou mesmo metafísica, mas da dor física - donde todas as outras, não nos enganemos, derivam. A dor não só estabelece um registo sem expressão (e são, em particular, interessantes as reflexões cinestésicas do apicultor), onde nem o grito tem sentido, como obriga a um recuo e a um desdobramento: a dor faz descobrir a realidade animal do corpo, como na puberdade, e, perante a difusa abstracção da consciência, este reconhecimento pode tornar-se intrigantemente “confortante”; mas a dor é também uma corrente eléctrica que afecta o olhar, invadindo a paisagem e dando-lhe outra memória. A própria memória hierarquiza, com outro sentido e outra urgência, o vivido: descobre-se, por exemplo, que só se adquiriu realidade na imagem “idealizada” de quem nos amou. Tudo se transforma num todo que dilui, na sua geral materialidade, qualquer identidade.

A dor, mais do que formular a hipótese da morte, oculta-a: a morte só tem realidade social. É isso que o apicultor descobre no silêncio resignado das salas de espera dos hospitais. Quem sofre sabe que se confronta com algo que nada tem a ver com ele, mas com o mistério primordial e último da existência. Com o sofrimento físico nada se aprende: só se constata permanentemente aquilo que é o “leitmotiv” de Lars Gustafsson: “recomeçamos. Nunca nos rendemos”. A prova disso são os próprios cadernos do apicultor e aquilo que os motiva: como a urina fria da rã que o apicultor apanha no caminho, é-se obrigado a segregar o medo.

Perante a intensidade das páginas de A Morte De Um Apicultor, o olhar do leitor é forçado a desviar-se: rapidamente deixa de olhar sobre elas, para olhar com elas. E, em frente, concluir - como elas -, quando mais nada há a afirmar: “podemos sempre esperar”.


Publicado no Público em 1992.


Título: A Morte De Um Apicultor
Autor: Lars Gustafsson
Tradução do sueco: Anabela Diniz
Prefácio: Carl-Gustav Bjustrom
Editor: Asa
Ano: 1992
176 págs, € 1,51





segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

LARS GUSTAFSSON 1




O MAL ABSOLUTO



Conforme se vai lendo História Com Cão, o último romance de Lars Gustafsson traduzido para português, percebe-se que este possui uma “tonalidade” que o demarca na produção literária contemporânea a que habitualmente se tem acesso no nosso país; e o leitor que esteja um pouco familiarizado com os romances deste autor (as Edições Asa já lhe traduziram e editaram três livros) sabe que é comum às suas restantes obras. Porém, de um modo contraditório, assalta também ao leitor a dúvida (talvez irresolúvel) de saber se essa “tonalidade” é de facto específica da produção narrativa do escritor ou característica do contexto cultural de onde emana, já que se lhe pressente alguma sintonia com o “tom” de outras manifestações artísticas (literárias ou não) originárias da Suécia.

Seja como for, Lars Gustafsson é hoje não só o principal “embaixador” desta literatura periférica, como está estreitamente ligado à definição do seu “mainstream”, pelo trabalho crítico e ensaístico que exerce desde os anos cinquenta e, em particular, pela obra romanesca que começou a construir a partir da década seguinte. Além disso, o “diálogo”, nem sempre pacífico, que estabeleceu ao longo de mais de trinta anos com o seu amigo, e escritor, Sven Delblanc (falecido no ano passado), sobre todos os aspectos da realidade sueca, é hoje considerado como uma das mais estimulantes reflexões produzidas no seio da cultura do seu país durante este século.

Confesso que, de início, receei sobre o resultado deste romance, ao constatar que se passa em Austin, no Texas (cidade, em cuja universidade, Lars Gustafsson, há muitos anos, lecciona), pois estava convencido que a “tonalidade” referida era nórdica em demasia para que fosse transponível para outra área cultural e geográfica, sem parecer artificiosa. No entanto, Lars Gustafsson resolve muito bem este “risco” através da criação de um conjunto de situações que integram bem o leitor nos costumes de uma típica cidade média americana. E, algumas delas, são verdadeiras preciosidades literárias: recordo, por exemplo, o pormenor, bem humorado, da personagem principal, em noites de insónia, “dialogar” com a sua máquina limpadora de fundos de piscina…

Mas, por outro lado, talvez seja essa “mudança de paisagem” que torna mais evidente algumas das constantes narrativas que tipificam a produção literária deste autor.

Primeiro, a necessidade de uma ambiência de certa “semi-ruralidade”. Como se esse pequeno cosmos, com relações de vizinhança bem definidas, contivesse toda a problemática do mundo... Por isso, as notícias vindas de “outros universos” só servem para confirmar a sintonia que existe com esse pequeno cosmos retratado. Assim, em História Com Cão, as catástrofes naturais e sociais, de que a personagem principal vai tendo conhecimento, estão em perfeita consonância com aquilo que descobre, em pequenos sinais, no seu mundo privado: a crescente presença, por todo o lado, de um irremediável “mal absoluto”.

A segunda, o tipo de personagem principal que centraliza toda a estrutura narrativa: é sempre uma figura de cinquenta/sessenta anos, culta ou, pelo menos, com uma séria capacidade de reflexão sobre os mais ínfimos e efémeros pormenores do quotidiano e que, perante a diversidade da vida, tem sempre uma atitude de humildade quase religiosa… mas bem temperada de ironia.

Por último, todo o romance se centra, como se fosse uma monografia, sobre um tema de cariz filosófico, tratado de um modo exaustivo (deve-se a este aspecto o reconhecimento de que Lars Gustafsson é, antes do mais, um narrador-filósofo), e que ressalta das circunstâncias mais triviais da vida. É esta característica que permite estabelecer um dos contornos identificadores da sua obra: uma espécie de “densidade leve”, resultante de uma reflexão, integrada no mais simples e banal quotidiano, sobre questões determinantes da existência.

O carácter explícito em excesso destas componentes narrativas comprova que História Com Cão não é a melhor obra de Lars Gustafsson (tendo à mesma todos estes ingredientes, não há dúvida que o melhor romance deste autor continua a ser A Morte De Um Apicultor: a reflexão, verdadeiramente sentida - dando a este termo a sua significação mais “radical” -, sobre o papel que a “dor” tem na nossa existência, dá a esta obra uma dimensão pungente que a torna inesquecível). Em duas linhas, descreve-se a sua situação dramática nuclear: uma noite, Erwin Caldwell, juiz de falências em Austin, quando vai colocar o lixo na rua, vê um cão que, como em noites anteriores, ao tentar comer alguns restos, despeja o caixote, espalhando o conteúdo no seu jardim; perante a situação, perde as estribeiras e esmaga-lhe a cabeça à pancada. Este acontecimento desencadeia na personagem principal, figura com uma vida pacata e serena, um conjunto de dúvidas que passa a ocupar-lhe, de um modo obsessivo o seu espírito e ao qual parece reconduzir todos os pequenos actos e situações do quotidiano: “Se Deus existe, qual é então a origem do mal? Se Deus não existe, qual é então a origem do bem?” Será que “as concepções morais são apenas antropologia, como a etiqueta à mesa”?

Acredito que, apresentadas desta forma, estas questões possam parecer um pouco “démodés”, desligadas do frenesim do nosso mundo. Mas a capacidade narrativa de Lars Gustafsson, ao revelar como elas transparecem nas mais banais situações, permite-nos compreender como são determinantes, pois que nada, ao nível do comportamento pessoal ou da concepção que se faça do mundo, terá sentido sem a sua, mesmo que ilusória, resolução privada.


Publicado no Público em 1996.


Título: História Com Cão
Autor: Lars Gustafsson
Tradução do Sueco: Ana Diniz
Ano: 1996
Editor: Edições Asa
221 págs., € 10,47