quinta-feira, 17 de setembro de 2015

FRANCISCO COLOANE

 
 
 
UM ESCRITOR DE OUTRO MUNDO
 
Costuma afirmar-se que Francisco Coloane, o escritor que se tornou internacionalmente conhecido com as suas histórias passadas no Chile austral, pertence à estirpe de autores como Stevenson, Conrad, London ou até mesmo Hemingway. Quer isto dizer, que se considera que integra uma linhagem de escritores com uma vida aventurosa (e isto, pretende, por sua vez, caracterizar uma vida passada em regiões inóspitas, onde os autores afrontaram situações mais ou menos duras e violentas) e que essa vida serviu de fonte inspiradora à sua obra romanesca. De uma forma mais analítica, poder-se-á tipificá-los como autores que reflectiram, de um modo obsessivo, sobre o confronto homem/Natureza, uma vez que consideravam que era desse confronto que irrompia a “força moral” que personaliza o homem e lhe dá o conjunto de valores necessários para o dignificar na sua relação com o seu semelhante e com o meio envolvente. Por isso, a sua obra espelha uma visão passional, tingida de amor e ódio, pela Natureza, habitualmente “coisificada” no mar ou na floresta. Neste sentido, por exemplo, poderá classificar-se Francisco Coloane como um escritor do mar.
 
Porém, quando se analisa a obra dos autores desta estirpe, à luz da actual literatura mundial (e convém distinguir a obra destes escritores da presente literatura de viagens, já que esta é desencadeada por um “acto voluntário” que, de imediato, a coloca em parâmetros distintos), a sensação com que ficamos é que ela já morreu. Provavelmente, porque comecem a rarear as tais regiões inóspitas, ou porque o modelo de Natureza (associado ao Mal e à Morte), que lhes serviu de fonte inspiradora, já não tenha sentido, ou ainda porque já não seja possível uma vida aventurosa tal como eles a viveram. E, por isto mesmo, hoje, a formulação da relação homem/Natureza em termos literários já está muito distante da obra destes autores e só a reflecte como uma mediação referencial.
 
A obra de Francisco Coloane teve o seu período de maior pujança criativa nas décadas de quarenta e cinquenta. De facto, foi nessas décadas que publicou a sua trilogia de colectâneas de contos (Cabo de Hornos, Golfo de Penas e Terra do Fogo) que, no seu país natal, lhe granjeou o prestígio de exímio escritor de narrativas breves. Porém, é só tardiamente, na década de noventa, em consequência da acção generosa de divulgação da sua obra por parte do escritor seu conterrâneo Luis Sepúlveda, que o trabalho de Francisco Coloane começa a ser conhecido em termos internacionais. Para isso, muito deve também a consagração que lhe foi realizada no Festival “Étonnants Voyageurs”, dirigido por Michel Le Bris, em Saint-Malö, em 1995.
 
As memórias agora publicadas no nosso país, com o título de Os Passos do Homem, têm o principal mérito de ser um testemunho de um mundo que, por diversos motivos, já não existe. De facto, os costumes e as gentes aqui retratados, das longínquas terras de Chiloé, parecem vir de um “outro tempo”, em particular, pela forma como vivem a sua relação com a Natureza: há um respeito temeroso, embebido ao mesmo tempo de uma comovida ternura, e uma sintonia com o pulsar silencioso dos amplos espaços que, nos dias de hoje, já pertencem quase apenas a uma inevitável arqueologia dos sentimentos. Mesmo quando Francisco Coloane descreve situações mais recentes, envolvendo intelectuais ou figuras de um universo urbano, a memória, que os reconstrói e modela os seus intervenientes, vem da sua infância e de um “teatro de sombras” de personagens (pastores, pescadores, caçadores ou mesmo exploradores) que, ao transmitir-lhe os valores que estruturaram o autor, o prenderam definitivamente a um mundo já extinto.
 
Deve-se, por certo, a esta recorrência constante à infância, o carácter “desarrumado” destas memórias, onde o único fio tenuemente condutor parece ser o gosto particular do autor pelas viagens. Quem se habituou à fina arquitectura das narrativas breves de Francisco Coloane ficará impressionado de um modo negativo com o aspecto caótico de Os Passos do Homem. Além disso, o pincel intenso, com que o autor conseguiu colorir as paisagens onde deambulavam as personagens dos seus contos, parece ter perdido vigor, o que leva a evidenciar-se uma adjectivação e uma imagética que sofrem de um gongorismo excessivo. Restam, por isso, de Os Passos do Homem, algumas passagens que fazem recordar o “antigo” Francisco Coloane: relembro, por exemplo, a narração do momento de falecimento de seu pai e que aparece na obra como motivo recorrente.
 
Publicado no Público em 2001.
 
 
Título: Os Passos do Homem
Autor: Francisco Coloane
Editor: Teorema
Tradução: Serafim Ferreira
Ano: 2001
267 págs., € 15,90
 
   



terça-feira, 8 de setembro de 2015

ZOÉ VALDÉS



 
 


CUBA, ANOS NOVENTA
 
A Cuba pós-queda do Muro de Berlim é um dos casos que mais tem contribuído nos dias de hoje para uma certa turbulência nos campos ideológicos. Para alguns sectores de esquerda, representa o mais perfeito exemplo dos perigos sociais que pode originar a prática política de discursos utopistas, apontando-a como uma fortaleza de miséria, de repressão “popular”, de mediocridade quotidiana, de rasteirismo cultural. Por isso, é considerada uma criminosa aberração, só explicável pela obstinação tirânica de Fidel Castro e de alguns títeres que o apoiam. Paralelamente, certos sectores mais conservadores dessa mesma esquerda enaltecem Cuba pela sua fidelidade a um modelo social e político, pela sua resistência a uma “ordem universal” estabelecida pelos Estados Unidos, pela coragem e criatividade com que afronta um “bloqueio” que pretende vergá-la a aceitar a “normalidade” capitalista. Para cúmulo de hipocrisia, a própria situação de estagnação económica - que se considera resultante de um regime comunista imobilista - voltou a fazer de Cuba, entre o mundo ocidental, um dos locais importantes do circuito turístico internacional: hoje, procura-se nesta ilha, para além das praias tropicais, da sensualidade e da “salsa”, a Cuba de Hemingway que ainda, de um modo lamentável, subsiste. Além disso, o próprio mundo capitalista transformou o seu herói nacional, Che Guevara, que apenas pretendeu ser um obstinado guerrilheiro do comunismo internacional, numa figura de charme, numa espécie de mártir romântico e puro que dá, com a sua imagem, um suave toque “trágico” no universo sedutor da moda. No meio destas contradições, encontra-se um povo que é forçado a viver na total escassez, em nome de “futuros radiosos”, ou a fugir desesperadamente em balsas feitas de pneus e pedaços de madeira, vivendo décadas e décadas de exílio, mas sempre obcecado por esse “buraco negro” que é a “sua” Cuba.
 
E, entretanto, a literatura? Como se encontra a soberba literatura de Piñera, de Lezama Lima, de Carpentier? Ter-se-á tornado toda trânsfuga como a de Cabrera Infante e de Reinaldo Arenas? Por causa dos “bloqueios”, interiores ou exteriores, ou talvez não, muito pouco se conhece da literatura que hoje se faz em Cuba. Os poucos casos de autores que se conhecem no estrangeiro são os que, em confronto com o regime castrista, se exilaram. É o caso recente de Zoé Valdés, uma autora que obteve algum sucesso em França e, em particular, em Espanha (o seu último romance foi finalista do Prémio Planeta), e de quem agora a Ed. Teorema publicou o seu primeiro romance, O Nada Quotidiano.
 
Costuma dizer-se que, com bons sentimentos, não se faz boa literatura. É caso para se afirmar que também é muito difícil fazer boa literatura com maus sentimentos. E o que ressalta, de imediato, neste romance de Zoé Valdés é uma enorme amargura por partilhar o destino de um povo que, pelo menos parte dele, sente que foi condenado a viver abaixo dos limites mínimos da dignidade. É certo que também é esse sentimento que foi sobressaindo cada vez mais na obra de um Guillermo Cabrera Infante; mas, neste caso, estamos em presença de um genial malabarista da palavra que conseguiu “assimilar” em profundidade - e transfigurar em ambiências de uma magia desesperada - a tragédia de um povo que é castrado, dia após dia, na sua alegria e criatividade. Não é esse o caso, pelo menos nesta obra, de Zoé Valdés.
 
Não se entenda com isto que não existam méritos significativos em O Nada Quotidiano. A obra revela inegáveis potencialidades estilísticas da autora, principalmente pela capacidade de utilização de diversas matizes, que vão desde o aproveitamento de um registo muito oral, que consegue dar uma toada musical à frase, à manifestação, muitas vezes conseguida, de uma sentida exaltação lírica ou o uso do humor como forma de dissecação da mediocridade de situações tanto pessoais como sociais. Além disso, existe uma inequívoca coragem da autora em ultrapassar, com uma linguagem desempoeirada, mas bem ajustada ao clima da obra, a convencionalidade de certas situações, expondo-se de uma forma arrojada e íntegra. O Nada Quotidiano revela, portanto, fluidez de escrita; e a irregularidade, que a este nível também se detecta, é muito resultante daquilo que se chama uma “mão fácil” e à existência, em diversas passagens, de uma notória incontinência verbal. 
 
O romance, confessadamente autobiográfico, gira em redor dos amores e desamores de uma mulher - a quem o pai deu o nome de Pátria porque nasceu na sequência de um “meeting” do Primeiro de Maio - com o marido e o amante, o Traidor e o Niilista, e nas relações de cumplicidade com dois amigos exilados. Porém, muito mais importante do que esta trama, que é quase só esboçada no romance, é o retrato da presença abusiva do Estado num quotidiano já de si sofredor de enlouquecedoras carências de tudo. Um Estado que, em nome da justiça social, actua com uma arbitrária injustiça, reprimindo, espoliando, disseminando um medo larvar ou alimentando hipócritas cumplicidades em troca de medíocres benefícios, isto é, asfixiando de todas as formas a vida das populações. Um Estado que, além disso, nas áreas onde, de um modo legítimo deveria intervir, o não faz por estar totalmente depauperado, iludindo as pessoas com falsas expectativas ou com actividades de “fachada”. Neste aspecto, é bem exemplar a imagem que se transmite da Casa da Cultura, uma instituição que teve uma particular importância cultural em todo o mundo latino-americano nas décadas de sessenta e setenta, e que, hoje, parece só subsistir para dar no exterior uma ténue ideia de que o Estado cubano ainda tem algum respeito pela cultura.
 
Não ficam dúvidas de que existe uma dimensão tragicamente vivida nas inúmeras circunstâncias de uma miséria absurda em que as personagens de O Nada Quotidiano se enleiam. Mas talvez seja essa dimensão, ainda demasiado dolorosa na memória da autora, que a tenha condicionado a não superar a tónica de um simples libelo acusatório contra o regime castrista, a que se resume, de facto, este romance. No entanto, é justo afirmar-se que O Nada Quotidiano, sem ser uma grande obra literária, faz pressentir uma autora a quem será interessante observar o percurso.
 
Deve ser assinalada, por fim, a muito boa qualidade da tradução.
                                                                      
Publicado no Público em 1997
 
Título: O Nada Quotidiano
Autor: Zoé Valdés
Tradução: Serafim Ferreira
Editor: Ed. Teorema
Ano: 1997
167 págs., esg.
 
 
    


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

MICHAEL COLLINS

 
 
 
 
 
 

NENHURES
 
Uma das vertentes mais destacáveis da literatura norte-americana do último século caracteriza-se por espelhar uma atitude radicalmente crítica (para não afirmar de quase rejeição) da sociedade que a viu nascer. Esse “olhar” devastador sobre a sociedade americana, na maioria dos casos, tem origem numa concepção de vida obcecadamente individualista e num repúdio da massificação social, na denúncia de uma estratégia de resignação a uma existência devorada pelo “sentido” do todo social, eliminante das diferenças, que as instituições com papel na formação ideológica (a família, a escola, as “igrejas”, a comunicação social, o Estado) têm incutido na população. De facto, o que une escritores tão díspares como Thomas Wolfe ou John dos Passos, Henry Miller ou Nelson Algren, Jack Kerouac ou James Baldwin, ou, para nos aproximarmos das gerações mais recentes, Don DeLillo e Philip Roth, é esta visão da sociedade americana como um imenso deserto urbano, ácido e poluido, onde parece que só por milagre é possível irromper a “flor” da criatividade e da inovação.
 
É na continuidade desta tradição literária que Michael Collins, um recente autor, de origem irlandesa (será por mero acaso que este autor assina de forma homónima a um grande herói nacional irlandês?), mas radicado há muitos anos nos Estados Unidos, escreve o seu romance, agora traduzido no nosso país, intitulado Os Guardiões da Verdade. E a tradição é tão fortemente assumida que algumas páginas deste livro parecem reproduzir, como autêntico “pastiche”, a visão apocalíptica dos Estados Unidos que encontramos em obras, por exemplo, dos autores acima citados.
 
Numa primeira leitura, este obra retoma os ingredientes do romance negro. De facto, toda a trama se desenrola a partir de um caso sinistro de possível parricídio, que sucede numa diminuta povoação do “Middle West”, e que a personagem principal, um jovem redactor trabalhando num pequeno diário local, começa a investigar. E, despoletado por este brutal incidente, lá vão aparecendo – como já se tornou tradicional na literatura e cinematografia americanas que utilizam este tipo de ingredientes - todas as perturbações que, de uma forma larvar, minam aquela reduzida comunidade que, no momento em que se desencadeia a acção narrativa, está a viver um período marcadamente post-industrial (alguns dos trechos mais interessantes de Os Guardiões da Verdade são as descrições da cintura de fábricas abandonadas que rodeiam a cidade e que criam uma peculiar ambiência fantasmagórica) e que, por isso mesmo, segundo a personagem principal, de uma intensa abulia e desnorteio. É sobre essa pacata comunidade que tomba uma tétrica visibilidade (é necessário referir que o corpo da vítima, à excepção de um dedo, e algumas semanas depois, a cabeça, nunca chega a aparecer) com a chegada de equipas de televisão regionais e nacionais, fazendo não só que as suas perturbações assumam a desproporção dada pelos holofotes, mas também que pressione a personagem principal a uma obsessiva reflexão sobre o carácter ultrapassado e envelhecido da sua profissão.
 
Mas numa segunda leitura, introduzida pela análise constante que a personagem principal efectua do seu percurso e do momento que vive, percebe-se que Os Guardiões da Verdade pretende ser uma espécie de alegoria sobre a actual realidade americana. De facto, a personagem principal começa a encaixar, como num “puzzle”, a vivência pessoal (ele é filho de um industrial falido que, ao descobrir que a sua empresa não tem condições de competir com as congéneres que, no Terceiro Mundo, exploram uma mão de obra miserável, se suicida), a vivência dos seus vizinhos (que, embrutecidos pelo consumo e pelo espectáculo, navegam, entre os destroços das suas famílias, numa permanente deriva afectiva e sexual) e o estádio socioeconómico dos Estados Unidos. Neste cenário, todas as personagens começam a assumir um valor simbólico, em particular, as fulcrais da tragédia: o pai/vitíma, com o seu corpo desaparecido, transfigura-se numa realidade, diacronicamente sedimentada por valores de produtividade e de trabalho, mas violenta e rude, que foi desagregada por uma “outra” realidade, personalizada pelo indiciado/filho (traumatizado pelas mortes do irmão no Vietname e da mãe - abandonada em termos afectivos até à desistência de viver - e com os abusos sexuais perpetrados sobre a sua idiotizada mulher), construida pela actual geração americana, que se encontra afundada no meio de uma panóplia de solicitações e instrumentos de fascínio, a impingir-lhe códigos de conduta estereotipados, e se autodestrói, sem conseguir descobrir qualquer sentido harmónico para a existência. É, no fundo, esta a “mensagem” da tatuagem dos dedos do pretenso assassino: numa mão tem inscrita a palavra “Now”, noutra a palavra “Here”, e juntas escrevem a palavra “Nowhere”.
 
Mas este acontecimento horrendo, e a forma como é enquadrado pela comunicação social, vai servir também para que a personagem principal reflita, de um modo questionável, sobre o conflito imprensa escrita/imprensa televisiva. De facto, a personagem principal de Os Guardiões da Verdade entende que, perante uma realidade concreta e física decomposta (o corpo do cadáver que nunca aparece), o jornalismo impresso ainda poderá funcionar, através da interpretação, como instrumento de integração, de reconstrução da “verdade” (repare-se que o jornal local se chama “Truth”), enquanto a outra imprensa (a televisiva) oculta o vazio da realidade concreta através do “fabrico”, com um enorme poder de sedução, de uma outra realidade, transformando os seus consumidores em “zombies”, sem espaço nem lugar, perdidos numa éterea neblina, mas convencidos que estão a presenciar a “verdadeira” realidade. No entanto, este papel da imprensa escrita é também entendido como uma peça arqueológica e condenada ao fracasso: não é por acaso que o proprietário do jornal, por fim, se suicida e que o outro membro da redacção, o fotógrafo, é, de certo modo, parcial cúmplice do assassínio perpetrado. Resta à personagem principal (o redactor), entre dois infernos reais, o caminho da fuga – seguindo as pegadas de muitos outros homens de letras, ao longo da história da cultura americana, que se sentiram impelidos a afastar-se de uma realidade inóspita e que os repudia.
 
Creio que se torna evidente que Michael Collins pretendeu escrever com Os Guaridões da Verdade uma obra ambiciosa e, ao mesmo tempo, pessimista em relação à realidade americana. Como todas as obras deste género, é muito polémica – o que traz sempre a vantagem de contribuir para que o leitor reflita sobre os tempos que passam e os caminhos que se avizinham. Só é pena que, nalguns aspectos, este romance ainda revele algumas fragilidades na arquitectura das personagens e na consistência e verosimilhança das situações.
                                                                                        
Publicado no Público em 2001.
 
Título: Os Guardiões da Verdade
Autor: Michael Collins
Tradução: Alda Balsa Rodrigues
Editor: Gradiva
Ano: 2001
313 págs., € 5,00
 
 


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

GRAHAM SWIFT


 
 
 

A CONTAMINAÇÃO DOS AFECTOS

 

Um dos factos literários mais expressivos da última década relaciona-se com o número avassalador de obras e de autores que se podem considerar enquadráveis numa estética realista. É certo que esses autores, na generalidade dos casos, recusam esses parâmetros e não assumem que, de forma intencional, tenham resolvido repegar em qualquer “fio” - as tendências realistas das décadas de quarenta e cinquenta, por exemplo - que tenha ficado, solto e perdido, nas brumas da história literária. Pelo contrário, parece que é o mais singelo e puro prazer de contar histórias, de testemunhar (mas testemunhar “mesmo”, isto é, sem nenhum objectivo exemplar ou programático) sobre experiências e vidas que levou os escritores a aproximarem-se da estética realista.

 
Por isso, nunca a crítica literária ousou correlacionar os actuais escritores ingleses de obras realistas com a corrente do chamado “realismo britânico” (haverá, de facto, alguma relação entre a presente produção literária inglesa e as obras de um John Braine ou de um Allan Sillitoe?). Porém, devia-se também considerar que é um pouco ilusório crer que esse desejo de contar histórias de vidas baste para definir uma estética e que seja possível fazer “tábua rasa” de contributos - assentes num desejo muito similar - que, no fundo, já estão diluídos no próprio fluir literário.

 
Estas considerações tornam-se particularmente oportunas na leitura de uma obra como Últimas Vontades, o mais recente romance de Graham Swift, vencedora do último Booker Prize. Autor com uma meia dúzia de títulos publicados (dos quais as Publicações Dom Quixote editou alguns em Portugal), Graham Swift já tinha sido finalista do mesmo prémio literário com O País das Águas e foi considerado, há alguns anos, pela prestigiada revista “Granta”, como um dos vinte mais importantes escritores vivos em Inglaterra. O que é certo é que este estatuto não o livrou de uma acusação de plágio feita por um professor de Literatura australiano que considerou que o tema e a estrutura narrativa de Últimas Vontades eram decalcados de As I Lay Dying de William Faulkner, o que originou uma tremenda polémica sobre o que é na verdade plágio e obrigou autores, como Malcolm Bradbury, Julian Barnes e Salman Rushdie, a virem em defesa do acusado.

 
De facto, a acção de Últimas Vontades é, de certo modo, pouco original e simples: quatro velhos amigos, cumprindo as indicações deixadas à hora da morte por outro amigo, viajam pelo Kent até à povoação de Margate para lançarem as cinzas dele ao mar. Esse grupo de amigos, vizinhos num bairro popular londrino, é gente absolutamente vulgar: um talhante, um cangalheiro, um vendedor de legumes, um mecânico de automóveis e um empregado de seguros que equilibra o seu orçamento, apostando nas corridas de cavalos.

 
Pode afirmar-se, por conseguinte, que existe, de forma intencional, uma opção estratégica de “banalização” como ponto de partida romanesco. Como se a aposta do escritor fosse arrancar de um nível bem “incaracterístico” e conseguir, a partir daí, elaborar uma obra que “personalize” as personagens (passe a redundância), que lhes dê espessura e dimensão.

 
Enquanto a viagem decorre, os quatro amigos (e a viúva do defunto que, não viajando com eles, é uma espécie de “presença circulante” na sua consciência) vão rememorando as relações entre si e com o amigo falecido, começando, gradualmente, a sobressair os conflitos e as pequenas perfídias, e, por consequência, as contradições entre as cumplicidades veladas e as manifestações públicas de afecto que atravessam sempre as longas relações de amizade. De capítulo em capítulo, numa espécie de movimento sinusoidal das palavras e da memória, vão erguendo-se Ray, Jack, Amy, Vince e Vic, com as suas tragédias familiares silenciadas, as opções que perderam no emaranhado dos sentimentos, as fragilidades caracteriais que as situações de tensão e bloqueio fizeram desabrochar, as hipóteses de vida que só foram isso e que, por conseguinte, se transformaram em arquétipos norteando os afectos durante toda a existência. A vida aparece resumida a uma espécie de jogo, onde se fazem apostas, em que se perde e ganha, e as relações entre as pessoas não passam de “visitas” à irremediável solidão de cada um, aproximações que transfiguram ou massacram, deixando sempre a nostalgia do que escapou: como afirma Jack, o talhante falecido, a sobrevivência é o simples resultado - como na sua profissão - da gestão do desperdício. 

 
Será fácil, e não de todo incorrecto, afirmar que esta viagem é encarada como um processo de aprendizagem. E, naturalmente, da morte. Mas será? Estas rememorações parecem, de facto, convencer as diversas personagens de uma vaga “certeza” que dão os balanços feitos nas proximidades da morte; mas para que servem os balanços de vida se neles se memoriza principalmente as percas?

 
O que é certo, leitor, é que com os seus silêncios, com os seus desgostos que atravessam uma vida, com a alegria das suas descobertas contingentes, estas personagens revelar-se-ão inesquecíveis companheiros de “viagem”. E, para isso, em muito contribuirá o estilo adoptado por Graham Swift nesta obra, marcadamente despojado, eliminando qualquer efeito literário e “colando-se” ao humor e ao carácter abrupto da coloquialidade popular londrina; no essencial, percebe-se que, em termos estilísticos, se procura estabelecer uma perfeita consonância com a despretensão do “olhar” das personagens do romance.

 
Últimas Vontades é um excelente romance sobre a “contaminação” dos afectos, de como estes não se constroem através da irradiação de uma “pureza” nuclear, mas como um rizoma de contingências, boas e nefastas, que enleia em cumplicidades antagónicas as pessoas. De um modo inequívoco, é um romance que consegue satisfazer o leitor naquilo que ele mais legitimamente procura na ficção: interrogar-se com o autor e com as personagens, fazendo-o lembrar-se que a vida há-de sempre confinar-se a “cinzas lançadas ao vento diante da terra dos sonhos”.

 
Publicado no Público em 1997.

 
(Foto do Autor de Graham Turner).

 
Título: Últimas Vontades
Autor: Graham Swift
Tradutor: Maria João Delgado e Luísa Feijó
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 1997
314 págs., € 17,16
 
 




segunda-feira, 31 de agosto de 2015

J. M. COETZEE 2


 
 
 

 
 
O SILÊNCIO DA VIDA
 
Em 1997 e 1998, J. M. Coetzee foi convidado pela Universidade de Princeton, para, no quadro das Conferências Tanner, proferir duas conferências sobre um problema ético que considerasse bem candente. Dessa participação, resultaram dois textos (“Os Filósofos e os Animais” e “Os Poetas e os Animais”) que compõem este volume intitulado As Vidas dos Animais (completado por reflexões muito interessantes de uma teórica da literatura, de um filósofo, de uma professora de estudos religiosos e de uma primatóloga). Mas - e aqui se manifesta as peculiaridades da personalidade literária de J. M. Coetzee - em vez de optar pela forma de ensaio filosófico (forma habitual de participar nas referidas Conferências), resolveu elaborar dois textos de metaficção, em que uma velha escritora australiana, Elizabeth Costello, vai apresentar duas comunicações num colégio americano, onde o filho é professor auxiliar. Essas comunicações são sobre um tema que cada vez mais obceca esta escritora ao ponto de provocar, em seu redor, um clima de fortíssima hostilidade: os crimes perpetrados por sistema pelos homens sobre os animais.
 
A opção de J. M. Coetzee, em apresentar duas ficções - que constituem uma pequena novela - em vez de textos ensaísticos, não é gratuita: é que o autor está absolutamente convicto de que a narrativa é uma forma literária mais perfeita do que a do ensaio filosófico para ajudar a compreender uma determinada problemática. E isto porque a ficção, sendo o instrumento ideal para tentar compreender o Outro, tem, numa reflexão sobre essa alteridade quase absoluta que é o animal (pelo menos, porque assim tem sido assumido pela história das ideias e das religiões), uma capacidade de problematizar que parece impossível à filosofia. Por isso, como refere, de modo brilhante, Marjorie Garber no seu comentário, estas conferências de J. M. Coetzee são uma brilhante reflexão sobre os limites da inteligibilidade do romance e sobre a sua eficácia em transformar mentalidades. Saliente-se que, além disso, no caso do tema particularmente polémico destas conferências, a ficção, ao permitir encenar não só os argumentos, mas também as reacções, favoráveis e hostis, dos ouvintes e dos familiares de Elizabeth Costello, expõe, como se fosse uma construção pluridimensional, a problemática que está na sua raíz.
 
Antes de avançar para o tema concreto destas conferências, ou melhor, das comunicações de Elizabeth Costello (os direitos dos animais), gostaria de chamar a atenção do leitor para o facto de esta obra, na sua brevidade, ser uma das mais complexas, arrojadas e aliciantes reflexões que se pode ler sobre este tema e que está, com a maior das sinceridades, a anos-luz dos recentes debates caseiros sobre as violências cometidas sobre animais.
 
A argumentação de Elizabeth Costello parte do pressuposto de que toda a história da filosofia (de Aristóteles a Descartes e Kant), ao reflectir sobre o animal, sofre de “homocentrismo”; isto é, avalia o animal de acordo com valores fundamentais para o homem (a consciência, a razão ou a posse de linguagem articulada), definindo assim uma hierarquia equívoca e descurando aquilo que é o elo comum entre os homens e os animais: a existência de uma “alma corporizada”, com a mesma capacidade de fruir a vida e de pertencer à harmonia musical da Natureza, e, por consequência, com idêntico pânico pela morte (mesmo que a morte possa não ser, para os animais e para os homens, “a mesma morte”) e, o que é provavelmente fundamental, com a faculdade de transmitir estes sentimentos. 
 
Se assim é, a “alma corporizada” do animal adquire o estatuto de sujeito (a consciência de si próprio não deve ser determinante para esta definição) e, em sequência, não pode ser entendida como uma simples “coisa” ao serviço do homem. Nesta circunstância, é legítimo considerar que existe no animal os atributos essenciais de uma pessoa. Ora, como é sabido, o quadro de valores da civilização ocidental sempre considerou como crime qualquer violência exercida sobre uma pessoa, dado que qualquer sujeito se sente de imediato identificado com o objecto dessa violência. A dedução lógica deste raciocínio é que qualquer violência executada sobre os animais, mesmo pelos motivos mais altruístas, deve ser assumida, em consciência, como um crime. Por fim, se se considerar que nunca foi admissível definir graduações no estatuto de pessoa, é-se obrigado a chegar à conclusão de que somos cúmplices de carrascos de uma permanente carnificina criminosa de proporções superiores às do conhecido Holocausto da II Guerra Mundial (é esta, diga-se de passagem, a analogia que Elizabeth Costello efectua, para fazer compreender a situação dos animais, e que tanto choca certas “almas sensíveis”).
 
É evidente que J. M. Coetzee não pretende, com estas conferências, apresentar uma resolução para as relações dos homens com os animais, mas apenas problematizar essas mesmas relações, levantando substanciais problemas morais.
 
Quando se recorda que a vida do homem e toda a economia mundial sempre assentou no morticínio de animais, tem-se plena consciência de como As Vidas dos Animais se aproxima dos universos da utopia. Mas será possível continuar a voltar a cara para o lado, fingindo que se desconhece, e aceitar como natural, depois de ler esta obra de J. M. Coetzee, o clamor indefeso de vida silenciosa que se ergue das pocilgas e dos aviários que nos alimentam?
 
Publicado no Público em 2000.
 
 
Título: As Vidas dos Animais
Autor: J. M. Coetzee
Tradução: Maria de Fátima St. Aubyn
Editor: Temas e Debates
Ano: 2000
134 págs., esg.
 
 
 
 


J. J. SLAUERHOFF



 
 
 
 

EM LOUVOR DA INSENSATEZ DE PORTUGAL
 
As descobertas dos leitores derivam muitas vezes de acontecimentos fortuitos ou, pelo menos, resultantes de circunstâncias que não se podem considerar como estritamente relacionadas com o simples desejo da fruição literária: não tenho dúvidas que as razões que levaram ao aparecimento em português deste romance de J. J. Slauerhoff, O Reino Proibido, estão relacionadas com o facto intrigante de ser uma obra passada em Macau, tendo como personagem principal o bardo pátrio, e com a legítima curiosidade de saber que tratamento literário daria este autor holandês a temas da história portuguesa.
 
Nas ínfimas referências que se consegue obter no nosso país sobre literaturas mais periféricas, pouco ou quase nenhumas informações se descobrem sobre este autor. Foi possível, no entanto, saber que J. J. Slauerhoff foi um poeta com alguma notoriedade na chamada geração modernista neerlandesa e que fez algumas incursões no domínio da narrativa, de onde se destaca este romance agora traduzido.
 
Antes do mais, deve já referir-se que O Reino Proibido é uma obra de inegáveis qualidades estéticas e literárias, de leitura muito aliciante, e não uma mera curiosidade histórica. Um dos seus elementos mais fascinantes é a complexidade da estrutura narrativa, constituída por várias tramas, algumas delas com diversos narradores, que se vão entrecruzando num tecido comum. Além disso, em cada trama autónoma, mas confluente em termos temporais, aparece indícios que recorrem para outras, provocando, por isso mesmo, uma ambiência perturbante e originando, no leitor, uma expectativa que, curiosamente, morre em si mesmo. E este aspecto não só lhe cria um sincero mal-estar, como o obriga a interrogar-se sobre o elemento mais intrigante deste romance: o seu sentido.
 
Apenas quando o leitor chega às últimas páginas de O Reino Proibido é que confirma aquilo que foi pressentindo ao longo do romance, isto é, que o sentido que o estrutura é puramente formal. De facto, este tem uma construção narrativa muito próxima de um complexo metonímico em que a sucessão (e justaposição) das tramas provoca o efeito poético essencial. Desta opção estética decorre, nos dias de hoje, certa dificuldade na sua leitura e, por isso, teria alguma utilidade, em termos editoriais, que esta obra tivesse uma introdução que a integrasse nas correntes literárias e estéticas dos anos vinte e trinta, de onde é originária, e que, de certo modo, questiona e confronta.
 
Como é referido no texto de apresentação da contracapa, o romance conflui para uma situação em que um telegrafista naval irlandês se vê a percorrer os mesmos passos que Camões seguiu em Macau e na China, chegando mesmo a enfrentar o seu espectro. Como se o nosso poeta necessitasse, por razões e artes demoníacas, de entregar o testemunho do seu doloroso destino a um homem do presente século, atraindo-o e envolvendo-o com a sua sombra, de molde a dar-lhe a compreender o sentido “real” da sua obra. Porém, esta linha narrativa de O Reino Proibido é também somente aludida: a personagem contemporânea, depois de, por momentos, se “transfigurar” no poeta, numa alucinante deambulação pela China e por Macau (para a qual não é insignificante o uso do ópio), esquiva-se a essa “presença” dilacerante como se tivesse pressentido que o destino de Camões era impossível e insustentável.
 
Perante esta ausência de sentido explícito, o que fica subjacentes à(s) própria(s) trama(s) de O Reino Proibido é a substância que a(s) fermentou: o destino de Macau e, completarmente, de Luís de Camões. De facto, a imagem que este romance transmite da fundação de Macau, da sua situação como colónia extrema de Portugal ao longo dos séculos, é, num universo borbulhante de conspirações, ódios e brutalidade, de uma desumana epopeia no seu estatuto de ponta-de-lança para a “conquista” (no sentido político, económico e cultural) do Extremo Oriente.
 
Em paralelo, é dada à figura do poeta nacional um percurso que conflui para este estatuto de Macau: forçado ao exílio pelo poder político - em consequência de um conflito com o Príncipe português, devido a amarem a mesma mulher -, mas, ao mesmo tempo, aceitando este destino por corresponder à sua ânsia por “perder-se” em conquistas nos confins do Império, Camões é, durante a sua viagem para o Oriente, obrigado a substituir a espada pela pena (a imagem que se transmite do nosso épico é que este se sente “tentado” pela poesia, mas não a deseja de forma consciente) como forma de compreender as razões do seu destino (e com ele, o da sua pátria) naquelas paragens.
 
Neste sentido, percebe-se que “compreender” (a intenção de Camões) é um projecto mais ambicioso do que “conquistar” (as razões da fundação e da existência de Macau), mas que, no essencial, pretende atingir o mesmo fim: “absorver” os universos radicalmente distintos das civilizações orientais e, ao mesmo tempo, dar sentido à motivação da diáspora nacional e ao seu projecto expansionista. E o resultado final dos dois projectos é, tal como o seu percurso, similar: a cidade de Macau que o telegrafista vem a conhecer, no princípio do século, é uma “cidade-fantasma”, abandonada pelo país colonizador, sem sentido histórico e à deriva no tempo, uma espécie de “no man’s land” entre o Ocidente e o Oriente; quanto a Camões, a desmesura do seu projecto, transformou-o numa “alma-penada” caminhando pelas estepes desérticas (porque “insignificantes”) da China, em busca de regressar à vida, isto é, à sua pátria que não passa de um “sonho” que o repudia e abandona. O seu poema épico é, por isso, uma obra falhada nos seus fins, visto que o Oriente se recusa a tornar-se redutível à compreensão do Poeta e este sente-se forçado a utilizar, por circunstâncias históricas e paradigma cultural, a mitologia clássica (um território não-humano) para tentar compreender a insensatez do destino nacional.
 
E compreende-se, então, as razões profundas porque Macau e Camões exercem um enorme fascínio sobre J.J Slauerhoff: existe neles uma absurda insensatez que não só os torna inevitavelmente “perdedores”, como os transfigura, pelo seu não-sentido, em gestos históricos gratuitos, isto é, só compreensíveis e louváveis em termos estéticos.
 
Em conclusão, O Reino Proibido é uma obra que, para além de inúmeras interpretações romanescas do nosso Épico, que decerto deleitarão os nossos camonianos, se revelará de uma estranha e original beleza, mergulhando o leitor em universos impressionistas e fantasmagóricos que parecem reavivar as neblinas que percorrem inúmeros trechos do destino nacional e lhe darão uma aliciante, e respeitável, no seu questionamento, perspectiva sobre os caminhos para que a História empurrou este povo à beira-mar plantado.
 
Publicado no Público em 1997.
  
 
Título: O Reino Proibido
Autor: J. J. Slauerhoff
Tradução: Patrícia Couto e Arie Pos
Editor: Editorial Teorema
Ano: 1997
198 págs.,  € 1,10
 
 
 


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

DIDIER VAN CAUWELAERT


 
 
 
 
AMARGO E LEVE
 
No ano literário francês, um período bem peculiar e decisivo – uma vez que é determinante para avaliar a “colheita” desse ano – é o que se denomina por “rentrée”. Todos os anos são publicados, nesta altura, mais de cem títulos de narrativa e uma boa parte deles – muitas vezes mais de metade – pertencem a autores de primeiras obras. É sabido que muitos vão ficar por aqui; mas também é sabido que outros, com uma regularidade britânica, fazem aparecer as suas obras neste período, procurando, assim, captar as atenções dos júris dos prémios literários, de modo a que, com esse galardão, consigam atingir vendas e tiragens expressivas, assegurando o interesse das editoras pela publicação, sem percalços, das suas obras futuras. É desta forma que a “instituição literária” francesa se alimenta de uma produção regular, em que a maioria das obras, depois dos holofotes mediáticos, é esquecida, mas que, em paralelo, permite o aparecimento de um conjunto de obras decisivas para a história literária francesa.
 
Um dos autores habituais da “rentrée” literária francesa é Didier van Cauwelaert, de quem foi agora publicado no nosso país o romance intitulado A Educação de Uma Fada. Este autor, nascido em 1960, começou, ainda muito novo, no início da década de oitenta, a publicar a sua obra, exclusivamente narrativa e dramatúrgica, obtendo diversos prémios (em 1994, com o seu romance, Un aller simples, ganhou o Prémio Goncourt) e conseguindo sempre alcançar um significativo sucesso comercial e crítico. Com mais de uma dúzia de títulos publicados, na sua obra destacam-se, para além do que foi galardoado com o Goncourt, os romances Cheyenne e La Vie interdite.   
 
A Educação de Uma Fada parece construir-se como uma história de fadas para adultos. Ou, por outras palavras, assume a estratégia oposta à da literatura para a infância e juventude, procurando integrar o máximo possível de irrealidade num contexto real. E não se julgue que o autor opta por “aligeirar” esse contexto real; pelo contrário, são diversas as situações que aqui aparecem carregadas de sofrimento: a uma personagem é diagnosticado um cancro de mama, outra é uma refugiada iraquiana clandestina em França, a personagem principal, num quadro de decadência profissional, desagrega-se na abrupta ruptura da sua relação amorosa, uma criança vive com o estigma doloroso do desaparecimento brutal da sua figura paterna, etc..
 
É evidente que tal estratégia narrativa só pode ser bem sucedida se conseguir manter e transmitir um elevado grau encantatório. Quer isto dizer, que não basta ter uma visão muito peculiar sobre a eventualidade de existirem fadas num contexto real, mas que as personagens que aparecem com semelhante atributo mágico têm que ser assumidas pelo leitor como – pelo menos – beneficamente aceitáveis neste “exercício” da ficção e que, se deixar florescer na sua cabeça esta plausibilidade, tal opção só enriquece o seu olhar sobre a realidade. De outro modo, o exercício no fio da navalha com que se pretende “convencer” o leitor, ao mais pequeno desequilíbrio, poderá fazer com que este lance o romance para o lado, descrendo dele.
 
Ora, não há dúvida que Didier van Cauwelaert, em A Educação de Uma Fada, consegue, sem esgarçar, essa envolvência encantatória, ao ponto de “quase” nos fazer crer que certas personagens – como é o caso desta iraquiana, caixa de supermercado, que, originária e subsistindo num verdadeiro inferno vivencial, nunca abdicou do seu sonho de ingressar na Faculdade e de estudar André Gide – apenas aparecem na vida das pessoas com “o condão” de revelar o ponto momentâneo de “harmonização” da existência. E, por isso mesmo, este romance, através de uma estrutura narrativa (e de um estilo) que parece desenvolver a trama numa espécie de “voo de pássaro” – e que o autor já nos acostumou em anteriores romances -, revela, numa leitura fluída, uma visão aliciante, entre o terno e o amargo, sobre as formas como, nos dias de hoje, a vida desliza pela corrente dos pequenos júbilos e das grandes mágoas.
 
Por fim, gostaria de saudar o aparecimento, numa editora tradicional do sector escolar, de uma nova colecção, “Cântico Final”, dedicada à tradução de obras de ficção estrangeira. Principalmente, quando essa nova linha editorial nos aparece com características exemplares de edição – tanto ao nível de composição e do papel como do arranjo gráfico das capas e, o que é fundamental, da qualidade das traduções.
 
Publicado no Público em 2001.                                                                              
 
 
Título: A Educação de Uma Fada
Autor: Didier van Cauwelaert
Tradutor: Ana Paixão
Editor: Âmbar
Ano: 2001
196 págs., esg.