terça-feira, 15 de novembro de 2016

RAYMOND GUÉRIN

 
 
 

TOUT DIRE
 
Uma preocupação ferocíssima de sinceridade, eis o que apetece afirmar de imediato sobre a obra de Raymond Guérin. E, de tal modo premente, que revolvia o seu modo de escrever: este ficava sujeito, em termos estilísticos, a essa necessidade de rasgar os enquadramentos éticos com que a literatura, até então, procurava, pretensamente, revelar o “real”. Era, para utilizar uma expressão do próprio autor, o desejo de “tout dire”.
 
Uma ansiedade comum que movia também, por outra via, a produção literária dos seus amigos, mais afortunados, Curzio Malaparte e Henry Miller. Mas o público seu contemporâneo — Raymond Guérin viveu entre 1905 e 1955 e a maior parte dos seus livros saíram no período logo após a II Guerra Mundial — etiquetou, a tentativa do autor de instaurar um realismo mais intenso, de “sórdida” e “obscena”, não entendendo esse seu projecto de reinscrever a realidade numa perspectiva mais orgânica, mais visceral, em suma, mais corporal. E rejeitou a sua obra, rodeando-a de silêncio e esquecimento.
 
Além disso, o leitor coevo de Raymond Guérin também não entendeu que esse afrontamento da realidade, rompendo as conveniências éticas e estilísticas, tinha um outro objectivo: conseguir retirar da narração dos perfis contextualizados em situações-limite os arquétipos necessários para delinear um novo “corpus” mítico. Nesse sentido, o seu último romance, Les Poulpes, ao ficcionar a sua experiência nos campos de prisioneiros de guerra nazis, onde passou três anos, é, no pessimismo trágico das situações descritas, o que mais corresponde aos seus parâmetros estéticos.
 
Por isso, as personagens a que Raymond Guérin dá voz e fala em A Pele Calejada, agora apresentada ao leitor português numa excelente tradução de Luiza Neto Jorge, vão confessando-se como meros corpos vivos, fazendo a sua aprendizagem mortal do destino. Personagens mal nomeáveis, negações da excepção: as mesmas, cujos gestos e voz, Viviane Forrester considerava, num belíssimo e recente livro, La Violence du calme, como grãos da poeira sussurrante que faz a História e o tempo.
 
Clara, Jaquina, Luísa. Três irmãs, três corpos de mulheres, cuja pele ainda estremece com o sofrimento, ainda não calejou (calejar a pele era o argumento do pai para justificar a pancada que lhes dava), que se esquivam, como podem e sabem, à malha de morte que lhes querem fazer vestir: a fome, os ritmos desenfreados de exploração, a repressão judicial, o amor sem desejo, os filhos não queridos, os abortos, a doença.
 
Mas presas acossadas, desarmadas pelo querer dos outros. Que as vampiriza: pais, patrões, polícias, juízes, amantes. Forçadas, desde a infância, a só reconhecerem a sobrevivência como modo de estar, impelidas para a marginalidade, como se fosse inerente â sua condição de mulher tudo o que lhes irá acontecer.
 
Estas figuras femininas, sobressaídas do silêncio ruidoso destas páginas, pretendem não ser apenas “voz”, mas “deusas”, representando um exército de sombras que o silvo do tempo teima em silenciar e que Raymond Guérin procura, com o desespero da palavra escrita, manter, a todo o transe, os contornos do rosto e do corpo.
  
A partir de um texto publicado no JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias em 1982.
  
Título: A Pele Calejada
Autor: Raymond Guérin
Tradução: Luiza Neto Jorge
Editor: Assírio & Alvim
Ano: 1982
96 págs., esg.