terça-feira, 16 de janeiro de 2018

MICHEL RIO 2

 
 
 

AS TREVAS E A LUZ
 
O problema de uma certa ideologia e de alguma literatura (e aqui pontifica, e de que maneira, a literatura francesa deste século) foi o de crer que o homem é Deus: foi essa a imagem a que algum humanismo não conseguiu (ou não quis) fugir. Mas, nos últimos anos, talvez décadas, a História tem provado como isto foi um enorme logro. E que matou tanta ou mais gente que as catástrofes naturais, por exemplo.
 
Hoje devia ser mais do que sabido (mas é, de facto, esquecido com facilidade) que o homem é erro. E que é na luta contra o erro que se tem afirmado como homem. Nunca foi posto em dúvida, que se saiba, o sentido da luta da razão contra o caos. Desde que se tenha a ressalva, naturalmente, de entender como caos muito do que foi assumido como razão e de que esta assuma a paixão como elemento ordenante, redutor do caos.
 
É de tudo isto que trata Merlim de Michel Rio. E é assombroso (mas sintomático) que um escritor, no final deste século, sinta necessidade de escrever um romance sobre este tema. E faça um livro optimista, ferverosamente apologista do sentido histórico da razão.
 
Michel Rio resolveu ir buscar um mito das primeiras ficções. Quer isto dizer, ao tempo em que estas introduziram, de forma sub-reptícia, alguns grãos de loucura nos fundamentos da Verdade. E desse mito fazer um profeta laico, um defensor da força espiritual contra a força física. O que este romance narra é o tempo das névoas, em que os homens viviam asfixiados por todas as naturezas, em que as instituições não tinham tido força para as afastar, impondo-se como Lei. E o contributo de um mito, disfarçado aqui de homem, para a impor.
 
Tudo o que há é guerra”, diz uma personagem crucial deste romance. E Merlim vai lembrando-se desta frase para a combater. Artur e a Távola Redonda são criações de Merlim para fazer crer aos homens e ao (seu) espírito que aquela afirmação não é um destino irreparável.
 
A paixão, quando irrompe, corta, nestes tempos, a direito como uma navalha e todo o tipo de incestos são aqui cometidos, todo o tipo de adultérios são sem mácula. A paixão é, em Merlim, o sedutor, o indominável, o irremediável hemisfério sul do espírito. Mas ele é também entendido como o principal fornecedor de matéria-prima do prazer e da paixão. E esta como corpo, como quotidiano necessário para o trabalho da razão. E, contudo, como sua principal inimiga também: Merlim apaixona-se; mas salienta sempre que o papel do soberano, por dever de eternidade, está em afirmar a Lei contra a paixão.
 
Espero que esteja de férias, leitor. Se estiver, leia este livro. Michel Rio é um autor francês com um certo traquejo profissional (este é o seu sétimo romance). Não se pode dizer que seja na verdade um criador, mas é brilhante. E tem inegáveis méritos de estilista, que a tradução, felizmente, deixa revelar. Talvez o leitor, no fim, não se sinta muito mais culto, mas fica, de certeza, empolgado e reflexivo sobre aquilo que há muito já reflectiu.
 
Segundo Merlim, a razão deixou ruir várias vezes o mundo enquanto Merlim foi vivo. Quantas vezes irá ruir mais? Que cada um tropece nas ruínas da sua vida... Aprenda, leitor, aquilo que já sabe: a razão é sempre curta. É mesmo a sua qualidade mais essencial. Aprenda que a Fata Morgana, a exilada, canta e encanta, como uma sereia, sempre, sempre, a sua razão e a sua verdade, leitor. Merlim, antes de desaparecer da história e se tornar de novo mito, enterrou o cadáver de Artur, o campeão da Justiça, junto de Morgana, a irmã, amante e inimiga. E o “recado” torna-se óbvio: nem estamos em Camelot, nem estamos em Avalon, mas a meio caminho, num canal (o Canal da Marcha) por onde a vida passa.
 
Confundi-o, leitor? Não queria, confesso. Por isso, utilizo, como um comentarista medieval, um argumento de autoridade: a crítica francesa, ao analisar este romance, lembrou Shakespeare. Aquele (com Cervantes) que tinha um pé nas trevas e outro na luz. Será esse o caminho de um iluminismo deste fim de século? Será, pelo menos, uma suave ponderação para se ter ao sol de Setembro.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: Merlim
Autor: Michel Rio
Tradução: Telma Costa
Editor: Teorema
Ano: 1990
139 págs., € 8,98
 
 


domingo, 14 de janeiro de 2018

LOUISE ERDRICH

 
 
 

 
SEM RESERVAS
 
Quando Filtro de Amor apareceu em 1984, certos críticos perceberam que, com este romance, qualquer coisa se “deslocava” nas letras americanas. E, no entanto, quase todos concordavam que nada havia nele de radicalmente inovador.
 
Pelo contrário, Filtro de Amor, de uma jovem escritora de trinta anos, retomava a seu modo uma das mais genuínas tradições literárias americanas. Nas suas páginas, renascia aquele realismo existencial, de forte carga simbólica, que, vindo de Herman Melville e Sherwood Anderson, tinha sido de forma exaustiva cultivado pela literatura sulista: Eudora Welty, Flannery O’Connor, Carson MacCullers e, obviamente, por essa ave de rapina que continua a pairar e ensombrecer o acidentado chão da literatura contemporânea — William Faulkner... só que vinha de uma escritora do Dakota do Norte e, ainda por cima, meio-índia Chippewa: Louise Erdrich.
 
Mas se o aparecimento de Filtro de Amor parecia vir dissolver as unidades que compõem o universo literário norte-americano (era de facto sintomático que uma escritora do Norte - e índia - produzisse uma obra que dava uma importância crucial à territorialidade e ao clã, a um exaustivo tratamento psicológico das personagens e reforçasse a dimensão simbólica das situações dramáticas), por outro lado, este romance instituía, pela sua qualidade artística, uma literatura índia moderna, peça que faltava no complexo “puzzle” que é a produção literária dos Estados Unidos.
 
A crítica americana, além disso, expressava a opinião de que os melhores termos para caracterizar Filtro de Amor eram palavras inteiramente fora de moda como militância, identificação, exemplaridade.
 
De facto, é notório que Filtro de Amor está empenhado, sem ambiguidades, em explicitar o mal-estar sociocultural de um povo que, tendo dominado todo um continente, hoje se encontra confinado a reservas, reduzido a duas centenas e meia de milhar e é utilizado ridiculamente para propaganda turística e humilhantes “westerns”. Na verdade, não há aqui nenhum folclore de pacotilha: as personagens, que por estas páginas aparecem, vivem uma fruste marginalidade, lutando pelas mais elementares condições de subsistência, desenraízados dos seus hábitos económicos e culturais. Aqueles que tentam manter as ancestrais tradições de caça e de pesca (como o velho Eli), são encarados, pelos da sua raça, como figuras selvagens e estranhas; porém, ao mesmo tempo, todas estas personagens se sentem como descendentes dos antigos senhores das grandes planícies, e, por isso, regaem contra este contexto, através de uma deslocação “pervertida” (a fuga, o trabalho itinerante, o álcool e até, de certa forma, a clausura monástica).
 
A autora, para revelar toda a densidade desse mal-estar e o perspectivar de uma forma globalizante, resolveu optar por narrar, de forma descontínua, a crónica de duas famílias durante os últimos cinquenta anos, utilizando uma técnica simples, mas muito eficaz: diversas situações, determinantes no destino dessas famílias, são descritas por oito narradores distintos, o que não só lhes intensifica o carácter fulcral para cada personagem, como lhes transmite uma significação colectiva, dado que assumem um sentido simbólico que identifica bem a complexa instabilidade que vive todo o povo índio.
 
No entanto, não se julgue que as preocupações literárias de Louise Erdrich são apenas colectivistas. Pelo contrário, a construção elíptica dos diálogos, a descrição sintética dos comportamentos, a densa caracterização das personagens são feitas com tal poder empático, que o leitor fica em dúvida que estas sejam na realidade ficcionais. As catorze narrativas interrelacionadas, que constituem Filtro de Amor, encenam situações-limite, exemplares no seu dramatismo, para a compreensão ética e psicológica de cada personalidade central. Histórias, como as de “Gansos Selvagens”, “O Descapotável Vermelho” e “Coroa de Espinhos”, para apenas citar algumas, são não só tramas fulgurantemente originais, como, pelo seu desenvolvimento narrativo, conseguem expressar, de forma inesquecível, a intensidade da paixão, o vibrar dos afectos daquelas figuras que, vivendo e morrendo nas suas casas rurais, deambulando pelas estradas e móteis do interior, alcoolizando-se e adormecendo ao balcão de bares das cidades de província, são arrumadas, de forma anónima e retórica, sob o epíteto de “América profunda”.
 
Quando fechamos este livro, encontramos na contracapa o rosto de uma mulher bonita e serena. E jovem, também. E espantamo-nos: quantas vezes, de onde menos se espera, aparece a navalha que rasga o filtro da contenção e nos reconcilia com vida e a literatura. Não há dúvida: Filtro de Amor é a comprovação que o realismo americano se encontra bem de saúde. E recomenda-se.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Titulo: Filtro de Amor
Autor: Louise Erdrich
Tradução: Fernanda Barão
Editora: Publicações Dom Quixote
Ano: 1990
251 págs., 12,59 €
 
 


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

JORGE IBARGÜENGOITIA 2

 
 
 
CONSPIRAÇÃO FRACASSADA
 
Quando, há quatro anos, a Editorial Caminho publicou o romance As Mortas de Jorge Ibargüengoitia, muito boa gente ficou impressionada com aquela centena e meia de páginas: descobria-se um autor pertencente a uma literatura (a mexicana), da qual só se conhecia uma bendita trindade (Rulfo, Fuentes e Paz), e logo com uma pequena obra-prima de crueza e humor, de realismo alucinado. As Mortas, com a sua ironia ao mesmo tempo trágica e gélida, conseguia realmente revelar por que motivo as componentes de mestiçagem cultural, de telurismo miserável, de suburbanismo concentracionário dão aquela configuração de carnalidade e morte, de realidade à beira do abismo, que caracteriza o universo social mexicano.
 
Por tudo isto, era com uma séria expectativa que se encarava a tradução de uma nova obra de Jorge Ibargüengoitia. E talvez também, por tudo isto, é que Os Conspiradores desiludiu tanto.
 
Os Conspiradores é uma tentativa de ficcionar uma das primeiras insurreições independentistas do México, a rebelião do padre Morelos, no início do séc. XIX, uma das manifestações que prenunciava a maturação social existente nesta colónia espanhola para a independência (que decorreu cerca de dez anos depois). Note-se, contudo, que Jorge Ibargüengoitia não pretendeu fazer obra de rigor historiográfico, e, por isso, deu outros nomes aos líderes do movimento e acrescentou situações que só se justificam pela liberdade criadora; mas os principais acontecimentos narrados e o seu contexto cronológico não deixam dúvidas quanto à insurreição descrita em termos romanescos.
 
Esta rebelião, como sucedeu noutras regiões, foi, em grande parte, resultante do descontentamento da população crioula (descendente dos espanhóis nascidos na colónia) por ser, de forma sistemática, preterida nas funções de gestão da sociedade colonial em relação à oriunda de Espanha. Mas se o estatuto da população crioula lhe dava condições para liderar o movimento independentista, o mal-estar era muito mais generalizado, tocando a população mestiça e índia, miseravelmente explorada nas grandes propriedades fundiárias e na produção mineira. Natural, por isso, que os acontecimentos provocados pala rebelião ultrapassassem os seus principais promotores, transformando-se num movimento contra qualquer ordem social e económica, de profunda inspiração religiosa.
 
Ao descrever toda esta situação, Os Conspiradores pretende também realçar certas contradições que estão na base de alguns dos acontecimentos mais dramáticos da história contemporânea do México: os brutais desníveis económicos que propiciam cíclicas explosões de fúria popular e repressões sanguinolentas; o carácter espontâneo e massivo do sentimento de rebelião, sempre asfixiado por uma radical escassez de meios para se impor, que irrompe de uma crónica resignação à miséria e às distinções sociais; a dinâmica insurrecional da religiosidade popular e o estatuto apaziguador e conservador da Igreja, etc. Por outro lado, como é notório na caracterização dos protagonistas desta rebelião, visa-se também demonstrar que são essas contradicções o que, no essencial, referencia o comportamento dos agentes individuais: entre o legalismo, a corrupção e o populismo, entre a megalomania militar e a impreparação política, os líderes dos movimentos revolucionários nunca conseguiram de facto, naquele país, dar um sentido abrangente à vontade popular, soçobrando sempre perante situações indomáveis e destruidoras.
 
Mas o carácter trágico deste tipo de acontecimentos assume sempre, neste romance, uma dimensão banal e vulgar. E isto deve-se, na nossa opinião, a dois factores. Em primeiro lugar, se, em termos históricos, pode parecer correcta a opção de dar uma configuração de “memórias” de um protagonista secundário ao material narrativo (tendo em conta a importância do memorialismo no séc. XIX), esta revela-se desadequada em termos literários, porque introduz um elemento de distanciamento emocional que esbate a dimensão “viva” dos acontecimentos narrados, e, ao mesmo tempo, desactiva a introdução do humor - instrumento estilístico fundamental em Jorge Ibargüengoitia -, na medida em que este aparece identificado com a posição parcelar do protagonista-narrador. Em segundo lugar, o estilo seco, pretensamente objectivo, e o linearismo narrativo (só entrecruzado de recorrências do narrador) retiram qualquer textura épica às situações descritas e transformam os seus protagonistas em títeres medíocres.
 
Por fim, gostaria de expressar aqui a convicção, dada a importância cultural de uma editora como a Caminho, de que se deve decerto a um mero lapso a inexistência na obra de qualquer referência ao tradutor.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: Os Conspiradores
Autor: Jorge Ibargüengoitia
Editor: Editorial Caminho
Ano: 1990
195 págs., esg.
 
 
 



quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

ERIK ORSENNA

 
 
 
TAREFA INGLÓRIA
 
Um dos critérios mais sintomáticos, que o meio editorial português tem utilizado, para a escolha, com vista a eventual tradução e edição, de títulos e autores franceses, é o dos prémios literários. É um critério frágil e revelador das dificuldades que, na actualidade, os nossos editores têm em se orientar na selva da produção literária e do movimento editorial gaulês. Tanto mais que é sabido que a concessão de um prémio a uma obra, nos casos, pelo menos, mais importantes, como é o Goncourt, é em grande parte consequência de um complexo jogo de influências que as casas editoras exercem sobre os membros do júri (na generalidade, autores dessas mesmas casas editoras).
 
Erik Orsenna ganhou o prémio Goncourt em 1988, com o romance A Exposição Colonial (já editado no nosso país), e, por isso mesmo, foi bastante referenciado durante esse ano no meio literário francês. Naturalmente, integrou também a comitiva de escritores que se deslocou a Portugal no ano seguinte, no âmbito do programa das “Letras Francesas”; no entanto, como sucede sempre nestes intercâmbios, o que se pretende nestas circunstâncias não é tanto chamar a atenção para este ou aquele autor (a composição destas “embaixadas” é, de um modo quase inevitável, resultante de condicionalismos vários), mas permitir uma imagem diversificada da produção literária de um determinado país e propiciar contactos entre criadores e públicos. E, de facto, Erik Orsenna, com Goncourt e tudo, era um dos autores menos significativos da comitiva, não só porque é muito pouco prolífico (em catorze anos, publicou quatro títulos), mas, sobretudo, porque nunca ultrapassou um valor literário mediano.
 
Traduzir e editar um romance como A Vida Como Em Lausanne pareceu-nos, assim, um trabalho com muitas possibilidades de se tornar inglório. O projecto narrativo deste romance é, por si só, já estreito e perigoso: retratar a mediocridade existencial de certa camada dirigente da actual República Francesa, utilizando por eixo o percurso de um político centrista que descobre, como paradigma de vida, os valores cinzentos de uma cidade como Lausanne.
 
Tudo isto é, obviamente, estereótipo; mas, ainda assim, poderia dar origem a uma panorâmica balzaquiana da presente sociedade francesa. Em particular, se tivermos em conta que o referido percurso se inicia, antes da I Guerra Mundial, com os ambiciosos desígnios poéticos que a mãe, ainda na concepção, projecta para o futuro político, e se desenrola, entre amores abúlicos e carreiras fracassadas, ao longo de todos os grandes acontecimentos por que passou a França contemporânea.
 
Para que tal sucedesse, seria necessário, porém, que o autor não perspectivasse, utilizando um humor muitas vezes de gosto duvidoso, as situações e as personagens de forma redutora e caricatural. Esse olhar desfigurante, que o autor lança sobre todas as personagens (mesmo sobre aquelas que pretende tratar de forma benévola, como são os casos da mãe da personagem principal ou da única paixão por esta nomeada), faz com que a mediocridade alastre como uma pasta gelatinosa sobre os movimentos sociais e políticos que deram corpo à França deste século, transformando-os num cortejo carnavalesco de factos e figuras. Por outro lado, não se vislumbra no romance outro fio condutor que não seja uma permanente deriva entre esses factos históricos, integrados, por vezes de forma forçada, na história individual da personagem principal.
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A utilização constante da elipse e uma minuciosa fundamentação histórica, bem reveladora da dimensão profissional com que Erik Orsenna entende o trabalho literário, são os principais méritos de A Vida Como Em Lausanne. Mas uma tradução literal em excesso e uma pontuação descuidada fazem com que o texto em português se torne muito confuso e, por vezes, absurdo. Além disso, a inexistência de um correcto trabalho de edição que esclarecesse, através de notas de rodapé, as infinitas alusões e referências ao mundo cultural, social e político francês, faz com que este romance se torne ilegível ou, pelo menos, bastante insignificante para o nosso leitor comum.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: A Vida Como Em Lausanne
Autor: Erik Orsenna
Tradutor: Franco de Sousa
Editor: Editorial Estampa
Ano: 1990
268 págs., € 3,00



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

RICHARD WRIGHT

 
 
 
RADICALISMO E RECADO
 
A mais elementar história da literatura americana reconhece que Richard Wright, com os seus dois primeiros livros, Uncle Tom’s Children e este Filho Nativo, foi um autor-charneira na literatura de origem negra. Com um realismo “social”, denunciatório e didáctico (o autor era militante comunista quando os escreveu), estas obras contribuíram de facto para a caracterização da sensibilidade e do comportamento negros numa sociedade profundamente marcada pela segregação racial. E a sua repercussão foi de tal ordem que, sem sombra de dúvidas, determinou, estética e literariamente, a produção das gerações seguintes de escritores negros - mesmo quando repudiavam o seu realismo por demasiado ingénuo ou a excessiva tipificação dos seus personagens.
 
É certo que grande parte da importância deste escritor é resultante de razões históricas e sociológicas: Richard Wright viveu a deslocação de parte das comunidades do Sul para o Norte, a sua fixação nas grandes cidades industriais, a criação dos “bairros negros” e o novo tipo de violência que esta situação produziu. O romance Filho Nativo é o primeiro reflexo literário desta nova situação e, por isso mesmo, a obra fundadora do chamado “realismo urbano negro”.
 
Os méritos deste romance não se confinam, porém, ao estatuto de testemunho. Grande parte da modernidade e da importância de Filho Nativo advém das estratégias narrativas utilizadas para a caracterização da ambiência social e psicológica dessas novas comunidades. Assim, percebe-se que toda a construção romanesca é orientada para evidenciar, até ao excesso, que são os sentimentos constantes de medo e impotência que provocam a massificação sob uma mesma cor de pele. O desejo de extinguir a invisibilidade (como diria Ralph Ellison) do individuo motiva inteiramente o olhar e o comportamento de Bigger Thomas (que triste ideia, numa tradução que, de um modo geral, é escorreita e adequada, converter-se este nome em Tomás, o Calmeirão), mesmo nos brutais crimes que as circunstâncias o obrigam a executar.
 
Este é outro aspecto que demonstra a radicalidade da perspectiva de Richard Wright: ao construir a trama romanesca com base em dois crimes muito violentos e quase insuportáveis em termos éticos, o autor revela o carácter abissal da incomunicabilidade inter-racial num contexto de segregação. Repare-se, por exemplo, que Bigger Thomas, depois de cometer estes crimes por pânico, percebe que conseguiu, de qualquer modo, furar os condicionalismos do terror, sentindo, pela primeira vez na sua vida, o júbilo de ser soberano do seu destino - mesmo sabendo que este o irá arrastar para a pena de morte. Neste contexto, é impossível qualquer paliativo reformista, qualquer humanitarismo religioso ou ideológico, vindo do grupo étnico dominante; pelo contrário, este comportamento só reforça a presença branca e, por isso, agudiza o sentido de revolta e de liquidação do outro.
 
Grande parte da qualidade narrativa de Filho Nativo, onde são assinaláveis uma forte crueza e sentido de observação na representação das situações e um vigoroso dinamismo da acção dramática, desvanece-se, no entanto, na terceira e última parte. Aqui, como refere o lúcido posfácio de John Reilly, Richard Wright introduz o advogado de defesa Max, que irá funcionar como porta-voz das posições do autor em relação à questão racial. A partir desse momento, face às exigências do didactismo marxista, o ritmo narrativo amolece, a complexidade da observação vivida cede perante a linearidade da grelha ideológica e as personagens ganham em retórica psicologista o que perdem em eficácia dramática.
 
No fundo, este final revela-se contraproducente para os objectivos globais de Filho Nativo: as inquietações que levantam uma imagem contrastada da segregação racial ficam serenadas par um discurso que tudo procura responder e resolver.
 
Publicado no Público em 1990.
 
 
Título: Filho Nativo
Autor: Richard Wright
Tradutor: António Paço
Editor: Editorial Inquérito
Ano: 1990
379 págs., esg.
 
 



NORMAN MAILER

 
 
 
O FLUXO VITAL DA PALAVRA
 
 
O que levou Norman Mailer, durante dez anos, a escrever este romance, que, na edição portuguesa, tem mais de setecentas e cinquenta densas páginas, passado no Antigo Egipto, entre os reinados de Ramsés II e IX?
 
É evidente que esta pergunta, que, página a página, nos surge durante a leitura de Noites Antigas, se relaciona com a intervenção cultural que Norman Mailer vem exercendo na sociedade americana, polemizando com as suas manifestações mais intransigentemente puritanas e antidemocráticas. E esta intervenção é de tal forma enérgica que, no fundo, nos transmite a imagem de ser um produto genuíno da vitalidade contraditória e brutal dessa mesma sociedade. Como consequência, Norman Mailer aparece-nos como o mais típico escritor americano da actualidade, tornando-se quase impensável vê-lo debruçar-se sobre outro contexto socio-cultural.
 
Com a publicação de Os Nus e os Mortos, enorme fresco sobre a participação americana na Guerra do Pacífico, logo assumido como o romance da geração que nela entrou, Norman Mailer, com vinte e cinco anos, conseguiu saltar para a ribalta do mundo literário. Depois, em particular com os romances An American Dream e Why Are We in Vietnam?, os ensaios The White Negro e The Prisoner of Sex  e as reportagens The Armies of the Night e Miami and the Siege of Chicago, Norman Mailer vai irromper nas grandes questões das décadas de sessenta e setenta da sociedade americana, tais como o racismo, a guerra do Vietname, a contestação estudantil, os movimentos feministas e a chamada “revolução sexual”, etc.
 
Por fim, torna-se agora óbvio que esta atenção empenhada com a realidade americana conduziria a sua produção literária a uma nova fase, que pretende tratar de forma romanesca certos dramas “vividos”, exaustivas reportagens romanceadas ou, para utilizar uma expressão do autor, “romances de não-ficção” como O Canto do Carrasco.
 
Este género, bem marcante da actual literatura dos Estados Unidos, revela uma das pretensões literárias, de certa forma académica, mais caras a Norman Mailer: compreender, através da dissolvência das fronteiras entre a ficção e a não-ficção, a especificidade do contributo romanesco na interpretação da realidade.
 
Curiosamente, o projecto Noites Antigas vem afirmar o reverso desta mesma pretensão, completando-a: conseguir fazer transparecer uma realidade, de que só existem esparsos fragmentos informativos, através do trabalho de levantamento e coesão do romanesco.
 
Mas, é esse mesmo trabalho, que aposta em prolongadas e constantes narrativas mitológicas, em exaustivas descrições de ritos, de comportamentos e de ambientes, entendidos como fundamentais para a integração e habituação do leitor a um contexto socio-cultural tão diverso, que faz com que este romance se torne enfastiante e penoso.
 
No entanto, talvez em nenhum outro romance de Norman Mailer se encontrem algumas das suas preocupações maiores tão libertas da poeira factualista (decorrente de um tipo de intervenção na sociedade americana, que é, em termos ficcionais, bastante condicionante) como em Noites Antigas, corporizando-as, principalmente, na personagem central, Menenhetet.
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Assim, torna-se mais inteligível a sua tentativa de entender a agressão e a violência, em particular, nas suas formas últimas — a guerra e a morte -, como necessárias e determinantes a um “continuum’ de energia vital que se deve manifestar em todos os aspectos da existência, e que, portanto, explica também o caracter estruturalmente violento do comportamento sexual (daí a capacidade de Menenhetet em renascer do próprio sémen, desde que morra no momento de uma ejaculação fertilizante); ou a visão do tempo como um conflito entre o futuro e o passado (“Porque eu diria: tudo-o-que-está-para-vir pode estar a pesar sobre o-que-já-passou”, conclui-se a determinada altura), exigindo, de quem vive o presente, um radical empenhamento na sua existência (toda a composição de Noites Antigas se resume a uma longa revelação dos “sigilosos saberes”, que Menenhetet foi absorvendo no decorrer das suas vidas, ao faraó Ptah-nem-hotep, e que, por sua vez, vão servir, recebidos através do sémen, a um sobrinho homónimo, como preparação para a travessia da Terra dos Mortos, aquando do encontro das suas almas no além-túmulo).
 
Há, por isso, em Noites Antigas, um carácter de “suma” testamentária (“De acordo com a minha observação ninguém teme mais a morte que o mais inteligente dos escribas”, afirma, já quase no final do romance, Menenhetet), que reforça a dimensão demiúrgica da palavra, sempre assim considerada por Norman Mailer, visto que a entende como emanação pura desse fluxo de energia vital.
 
Mas, mesmo atingindo, em algumas passagens, soluções estilísticas muito belas, entre a prece e a evocação mítica, Noites Antigas, na maioria das vezes, dá-nos a impressão de ser um mero rol do repertório de informações já conhecidas sobre o Antigo Egipto, ou, então, a estrita afirmação de um falismo autoritário e violentador.
 
Fica-nos, por conseguinte, a ideia de que, sendo Noites Antigas um dos mais ambiciosos projectos da literatura da actualidade, este resultou num dos seus mais aparatosos falhanços. A tal ponto, que nos levanta a suspeita de que, reconhecendo contudo a importância ideológica da intervenção cultural de Norman Mailer na sociedade americana, este autor tenha sido em excesso sobrevalorizado.
 
Publicado no Expresso em 1985.
 
Título: Noites Antigas
Autor: Norman Mailer
Tradutor: Teixeira de Aguilar
Editor: Publicações Europa-América
Ano: 1985
427 e 339 págs., 17,67 € e 17,67 €
 
 



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

GORE VIDAL 2

 
 
 
O LASTRO ONTOLÓGICO
  
Talvez devido à dimensão exótica e intrigante de certas épocas, resultante da distância temporal, o romance histórico goza hoje de uma sólida popularidade, proliferando, um pouco por todo o lado (e até em Portugal, onde estas coisas aparecem sempre um pouco tardiamente), os cultores de um género que conhece uma excepcional voga editorial — mesmo se, na generalidade, os resultados sejam bem aquém das expectativas.
 
Mas, sem retirar legitimidade à exploração, por si só, desta dimensão exótica e intrigante, não há dúvida que a ficção histórica mais estimulante é aquela que se assume, sem sofismas, como um continente adequado ao conjunto das inquietações pessoais do autor (e, naturalmente, vem-nos sempre à lembrança esse paradigma que é Memórias de Adriano de Marguerite Yourcenar), ou então, tal como na obra de Gore Vidal, que encara a sua componente temporal como instrumento privilegiado de compreensão da historicidade.
 
O romance deste autor agora publicado, Criação, integra-se, com Juliano, o Apóstata e outros, numa vertente da produção literária de Gore Vidal que, em complementaridade à sua “ficção política” (da qual foi editado há pouco o romance Washington, D. C.), procura compreender os valores determinantes e mais primordialmente subjacentes ao mundo contemporâneo.
 
Criação é um romance que, de imediato, impressiona pela ambição. Uma obra de seiscentas páginas, que desenvolve a sua acção no séc. V A. C., e em redor de personagens tão fundamentais como Pitágoras, Heródoto, Sócrates, Péricles, Zoroastro, Buda e Confúcio, provoca no leitor uma razoável desconfiança, em particular, porque o alarma para uma leviana tendência ahistórica de certa “intelligentsia” americana. Realmente é bem pouco provável que algum escritor europeu encarasse, com sensatez, um projecto de tamanha pretensão...
 
Contudo, e é o mínimo que é possível afirmar, não se pode dizer que Gore Vidal saia destroçado deste projecto. Genericamente, o romance caracteriza com rigor, e de modo fundamentado, a ambiência da época; e se existem, de quando em vez, alguns deslizes de construção (por vezes, certo ênfase propositivo transparece nos diálogos, evidenciando o seu carácter de mero artifício de exposição), eles não obstam a que a narrativa seja, quase sempre, empolgante, e a que a acção se mantenha bem verosímil e encadeada.
 
A acção resume-se à biografia de um persa, Ciro Spitama, neto de Zoroastro e embaixador itinerante de Dario e Xerxes no Ganges e na China, ditada a um seu sobrinho de formação grega, Demócrito. Este destino, entre várias peripécias, vai permitir-lhe contactar com figuras basilares do pensamento oriental e ocidental e, obsessivamente, interrogá-las sobre a sua concepção da origem do mundo e da vida.
 
Ao construir o romance como uma longuíssima fala de um persa a um grego, existe já, em Gore Vidal, uma opção bem reveladora. De facto, esta construção vai permitir que, com plausibilidade, se coloquem na boca do persa as críticas mais radicais à civilização grega, determinando o que nesta existe de deslizante perda para o Ocidente: o abdicar de uma interpretação mítica e abrangente do universo pela tendencial sobrevalorização do “logos”.
 
Por outro lado, ao definir a personagem principal como um persa estreitamente ligado à religião zoroastrista, o autor vai orientar o romance segundo uma dupla direcção narrativa: primeiro, tornar inteligíveis as inúmeras correlações existentes nas grandes religiões orientais que pretendem uma harmonização (e não uma explicação) do homem com a natureza, quer através da definição de uma praxis que o relativize na ordem social e cósmica (Confúcio), quer através de uma integração da precaridade da morte no ciclo renovador da vida (Buda); segundo, sublinhar a importância civilizacional da concepção da dualidade primordial (o Bem e o Mal) que, vinda de Zoroastro, se desloca para a Gnose e, depois, para o Cristianismo.
 
Neste sentido, Criação distancia-se da tendência maior da reflexão neste século que principalmente tem evidenciado o excessivo “peso” da tradição judaico-cristã nas formulações da contemporaneidade. De facto, o que neste romance se torna mais saliente é o papel das concepções religiosas que, na sua procura de absorver a “opacidade cosmológica”, têm contribuído para que o homem, mesmo perdendo sempre qualquer coisa em cada doutrina e deixando atrás de si um lastro de resíduos teóricos, tenha conseguido subsistir com a sua radical angústia ontológica e, ainda assim, construir sentidos conjunturais para a sua existência.
 
Note-se, por fim, que se observa nesta edição uma revisão menos cuidada (ao contrário daquilo a que esta editora nos tem habituado), por conseguinte, algumas gralhas e, aqui e além, uma pontuação de todo absurda. Mas demos o benefício de que é difícil manter um constante rigor numa obra tão vasta e esperemos que numa futura reedição (e este romance merece-o) estas pequenas falhas desapareçam.
 
Publicado no Expresso em 1989.
  
 
Título: Criação
Autor: Gore Vidal
Tradutor: Carlos Leite
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 1989
604 págs., esg.