segunda-feira, 26 de março de 2012

CARLO COCCIOLI



ENTRE O AMOR E O BEZERRO DE OURO



A inscrição da problemática da homossexualidade na literatura foi, como é do conhecimento geral, um percurso bem obscuro que obrigou os autores a exercícios ínvios e, muito em particular, dolorosos. Basta lembrar, neste século, os escritos pessoais de autores como Gide, Cocteau, Forster ou Isherwood, por exemplo, e de como viveram de modo torturado o conflito entre as pressões sociais e as exigências éticas que os impeliam a inscrever frontalmente esta problemática na sua própria obra. Porém, foi esta confrontação íntima que, em muito, contribuiu para o reconhecimento público desta mesma problemática.

Tudo isto tem hoje, pelo menos no registo literário, laivos de arqueológico. A mutação de mentalidades que se tem efectuado nas últimas décadas fez com que estas matérias perdessem — louvavelmente — grande parte da sua dimensão de escândalo. No entanto, esta forma mais franca de encarar a homossexualidade é recente e ainda não de todo pacífica. Como se pode ver na nota introdutória de Carlo Coccioli publicada na edição portuguesa do seu romance Fabrizio Lupo, ainda há quarenta anos o autor se sentira obrigado a circunscrever certos trechos da obra ao “espírito da época”. E mesmo tendo o autor, em edições posteriores, restaurado o texto original, é inevitável que o romance tenha de se ressentir da ambiência social em que foi escrito.

Estas circunstâncias reflectem-se, em Fabrizio Lupo, no seu carácter tacteante, palavroso, repetitivo e indisciplinado. E, em particular, na sua estrutura sinuosa: o romance é apresentado como resultante de uma “súplica” de uma personagem real, Fabrizio Lupo, para que o autor se torne porta-voz literário da sua experiência pessoal. Assim, Fabrizio Lupo é composto de três partes: uma primeira, onde se expõe a forma como a personagem entrou em contacto com o autor e em que narra a sua “história”; uma outra, mais extensa, integrando reflexões, folhas de um diário e o esboço de um romance da própria personagem; e, por fim, uma terceira parte constituída por cartas enviadas ao seu amante.

Pelo conjunto do material, e dada a atitude quase em exclusivo receptiva em relação a este com que o romance representa a figura do autor, fica-se com a ideia de que Carlo Coccioli aparece fundamentalmente como caucionador da narrativa de outrem. Mas, sem sombra de dúvidas, esta atitude não passa de um estratagema narrativo, uma vez que não são detectáveis diferenças estilísticas entre os dois narradores.

Fabrizio Lupo procura encarar a homossexualidade num contexto metafísico. De facto, a personagem principal, cristã e homossexual, redime as chagas da sua formação de adolescência com a seguinte conclusão: se Deus concebeu e orientou a capacidade de amar de um indivíduo num determinado sentido, a única solução (a única salvação) é ser-se “fiel” a essa natureza, sendo-se, assim, “fiel” à natureza de Deus: Ele é Amor e de todos os Seus actos emana aquilo que é. Por conseguinte, a homossexualidade (como qualquer sexualidade) só é aceitável no exclusivo quadro de uma relação amorosa, entendendo esta como elemento da ordem natural que é a emanação da substância divina: ser-se fiel ao amado é ser-se fiel ao desejo de Deus. O amado estabelece o elo com a ordem do Mundo e é, por si só, enviado e “sinal” de Deus (de certa forma, consubstancia a Sua Própria Natureza). O amante tem, unicamente, de esperar (ou melhor, esperar, “buscando”) que Ele envie esse “sinal”. Encontrado, termina-se a história (e a História): vive-se no tempo de Deus, no seio da Sua Natureza.

Porém, a teologia cristã concebe a ordem natural como estruturalmente heterossexual. A homossexualidade é, assim, entendida como “pecado”, condenando quem a pratica ao aviltamento religioso (e, por consequência, também social). Expulso da Casa de Deus, o homossexual fica entregue a autocomiseração, forçado à adoração do Bezerro de Ouro (e esta figura do segundo livro de Moisés representa aqui a consumação sexual da simples atracção física). A cidade, com os seus circuitos de abordagem permissiva, transforma-se, assim, no espaço dos alucinantes ritos de corrupção dos corpos e dos afectos.

É este o drama de Fabrizio Lupo: sabe que não há natureza sem sexo e que o amor é, antes do mais e nos seus fundamentos, uma “transpiração” dele; por isso, sem Deus nem Paraíso, o seu amado será presa fácil do terror do aviltamento social ou da desordenada degradação dos enredos da atracção física sem futuro.

No meio das suas fragilidades — e de uma perigosa propensão para uma concepção litúrgica da relação amorosa —, Fabrizio Lupo contem inúmeras páginas fascinantes e, em termos estéticos, bem  conseguidas: saliento aqui algumas passagens do “romance”de Fabrizio Lupo, repletas de uma sensualidade solar que lembra certas obras de Pavese e de Quarantotti-Gambini, ou as desesperadas “cantatas”, de sabor bíblico, em que a personagem reza por um amor inatingível.

No entanto, mesmo as fragilidades deste romance devem ser encaradas de forma compreensiva e empenhada: elas são, no fundo, o inevitável resultado da inquieta busca de um invulgar autor que, através de diversos espaços geográficos (Carlo Coccioli, depois de viver em Itália e em França, reside hoje no México), linguísticos (a sua obra foi escrita em italiano, francês e espanhol) e religiosos (depois de cristão, Carlo Coccioli converteu-se ao judaísmo), tem procurado descobrir uma Ordem que, provavelmente, não existe. E é esta a dimensão mais importante da literatura fundamental.

Publicado no Público em 1991.


Título: Fabrizio Lupo
Autor: Carlo Coccioli
Tradução: Rui Santana Brito
Editor: Edições Cotovia
Ano: 1991
410 págs., € 20,19

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