segunda-feira, 5 de março de 2012

CARLO EMILIO GADDA




O NOME DA DOR



É sabido que uma das consequências da criação literária é constantemente “refazer” a norma da língua, ao libertar-se dela. Porém, no caso da literatura italiana, por razões históricas e culturais, a questão é mais “radical”: de facto, esta língua foi, até ao alastramento da alfabetização e a proliferação dos fenómenos migratórios resultantes da industrialização, mais um “modelo” forjado pelos escritores do que uma língua falada pelos italianos. E se esta situação parece corresponder a um mito literário (o do criador que constrói um universo tão pessoal e autónomo que inclui o seu próprio instrumento de criação), ela motivou, pelo contrário, a necessidade constante de ultrapassar um espinhoso isolamento: alguns dos grandes autores italianos foram, por isso, impelidos a um trabalho de “recriação” da sua língua, conciliando os diversos dialectos da Itália e integrando contributos de línguas estrangeiras, românicas ou não, de forma a “renovarem” a norma e a aproximarem-se do mais amplo número de concidadãos. É este facto que origina uma das características mais peculiares e interessantes da literatura italiana: a de ser basicamente, até aos dias de hoje, um conjunto de literaturas regionais referenciadas a uma norma.

Estas considerações são fundamentais para perceber o poder criativo de um autor como Carlo Emilio Gadda e o motivo por que, desde os anos cinquenta, tem sido reconhecido, com Italo Svevo, como um dos principais escritores italianos da primeira metade deste século: aproveitando-se do carácter aberto da sua língua, Gadda construiu um instrumento literário particularmente complexo e heteróclito, cruzando contributos linguísticos da mais diversa origem, e com excepcionais capacidades expressivas. Além disso, a sua produção literária, iniciada nos anos trinta e tendo talvez o seu maior expoente no romance policial Quer Pasticciaccio bruto de Via Merulana, constituiu-se à margem das correntes que dominaram a literatura italiana até à II Guerra Mundial, tornando-se, por isso, não só única como dificilmente qualificável.

A reedição de O Conhecimento da Dor, numa tradução que se esforçou com mérito por captar os diferentes níveis de língua, tanto semânticos como sintácticos, desde os arcaísmos às formas dialectais, passando por neologismos ou expressões alienígenas, permite perceber a diversidade criativa do barroquismo do estilo de Gadda, que tanto pode assumir uma luminosidade lírica, como tomar-se de uma epicidade tonitruante, mas que é em predominância satírico e caustico. O objectivo desse estilo (que, de todo, não foi compreendido pelos críticos coevos de Gadda, já que inúmeras vezes o acusaram de ser um escritor “macarrónico’) é exclusivamente “sorver” o real, conseguir trazê-lo - através da expressividade com que é nomeado - para dentro das páginas da sua obra. E o carácter fragmentário e inacabado de O Conhecimento da Dor (que, como o autor explica, foi resultante dos “bloqueamentos” que os acontecimentos históricos, entre 1938 e 1945, provocaram à sua gestação) parece realçar ainda mais a concepção que Gadda tem da língua: a de ser, por si só, um instrumento de conhecimento.

Esta obra faz um retrato grotesco da existência como se esta não pudesse ser senão uma caricatura de uma Ideia já de si aberrante. Na visão implacável de um jovem fidalgo, perdido na vastidão de uma América do Sul imaginária, a existência é só uma dor disforme, sem nenhum sentido originário, que devora em mediocridade os seus dias e quem o rodeia, deixando-o entre um desespero prostrante e incontroláveis fúrias contra um Nada que se encarna na sombra lamurienta da sua mãe. A realidade, desde o mais pequeno detalhe às descrições rasgadamente globalizantes - como se cada parágrafo fizesse o esforço de conter o máximo de “matéria” -, tinge-se de comicidade, umas vezes de tons agressivos, outras soturnos; uma comicidade de quem descobriu, num esgar de amargura, que o conhecimento da dor pode ser uma “rapina que esgota tudo”, deixando apenas o seu nome a escurecer páginas e páginas.

Sem entrar em tipificações gastas, é inegável que a lógica discursiva de O Conhecimento da Dor é fundamentalmente poética. Talvez daí a sua dificuldade de leitura; tanto para mais que não existe nenhuma nostalgia de qualquer “paraíso perdido” para amenizar o olhar. No entanto, o leitor resista: verá que entrará em contacto com um universo inconfundível, de uma modernidade que parece vinda de um outro tempo, de uma estranha lucidez que parece brotar gota a gota, palavra a palavra.


Publicado no Público em 1993.

Título: O Conhecimento da Dor
Autor: Carlo Emilio Gadda
Introdução: Gianfranco Contini
Tradução: Nunes Martinho e Ernesto Sampaio
Editor: Vega
Ano: 1993
165 págs., 13,73 €



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