quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

HELLA S. HAASSE




A PERSONAGEM CRIADORA



Durante as décadas de setenta e oitenta, muito poucos foram os escritores holandeses que adquiriram uma segura irradiação nos circuitos internacionais da edição literária. Um deles é Hella S. Haasse, uma autora com uma longa carreira que, entre muitas outras expressões literárias, tem cultivado o romance histórico, um género que, como é sabido, possui públicos garantidos um pouco por toda a parte e, por isso mesmo, torna mais fácil a implantação de certos autores nesses circuitos. De facto, esta escritora conseguiu o reconhecimento internacional com alguns romances onde associa erudição a um criativo tratamento narrativo ao abordar temáticas em que a contextualização histórica contribui para evidenciar as componentes da sua problematização.

Bem exemplar de tudo isto é Uma Ligação Perigosa - Cartas de Valmont, o primeiro romance de Hella S. Haasse a ser editado no nosso país. Para um leitor de cultura média, este título estabelece logo uma conexão com As Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos, talvez o romance epistolar mais conhecido do séc. XVIII, e um dos textos fundamentais da literatura libertina. Partindo de uma referência de Laclos no final deste romance, onde assinala que a sua personagem principal, a marquesa de Merteuil, depois de ter passado o seu período de esplendor num constante jogo de seduções e traições, se refugiou, perseguida pelos credores, desfigurada pela varíola e cega de um olho, na Holanda, Hella S. Haasse resolve imaginá-la vivendo numa pequena casa de campo situada num local que, em neerlandês, quer dizer “Valmont”, o nome do seu amante e cúmplice nos jogos libertinos. E, a partir daí, conceber uma impossível troca de correspondência entre si e a personagem de Laclos, de forma a confrontar a sua visão do mundo e, em particular, da mulher com as reflexões sobre o seu destino com que, eventualmente, a marquesa de Merteuil, no meio da mais atroz solidão, ocupou os seus últimos dias.

A própria autora refere que um dos principais interesses desta correspondência poderá estar em reflectir experiências de vida de duas mulheres com características físicas e psicológicas diametralmente distintas. Além disso, Hella S. Haasse confessa que com esta correspondência pretendeu exorcizar um fantasma, isto é, uma determinada concepção da mulher e do seu lugar no mundo que lhe são estranhas, mas que, por isso mesmo, a fascinam.

A primeira constatação que se pode fazer sobre a construção de Uma Ligação Perigosa é que exige a interacção de dois níveis de leitura que se encaminham de um modo gradual para uma total confluência.

No primeiro nível, a obra parece centrar-se numa reflexão sobre dois estatutos da feminilidade. O primeiro, defendido pelas epístolas da marquesa de Merteuil, genuinamente iluminista, parte do princípio de que não há nenhuma relação social - e, muito menos, de cumplicidade de desejos - que não se baseie numa relação de poder. Por conseguinte, a afirmação da liberdade na mulher, no contexto social e político do séc. XVIII, parte do primado de uma soberania a conquistar (contra Deus, contra o Outro, contra a Natureza - isto é, o condicionalismo em si das emoções e dos sentimentos): o prazer (a “felicidade”) só pode resultar da vertiginosa paixão de manipular o outro, pelo exercício da razão, até ele se enredar de forma submissa na satisfação do desejo de quem o manipula. O segundo, protagonizado pelas cartas da autora, originário do quadro ideológico do romantismo, defende que qualquer relação social - e, antes de mais, a afectiva – “deve” assentar numa ética da igualdade que reconheça o outro como pessoa. A relação amorosa, neste contexto, não é a finalização de uma estratégia, de uma “representação”, mas a consequência “natural” (isto é, um efeito da sensibilidade) da necessidade individual de complementarização para o aparecimento do Ser: a felicidade está na condução do desejo num contexto sentimental, amoroso, que permita a construção, sempre frágil de um Uno utópico. Hella S. Haasse, mesmo tomando claramente partido neste conflito dialéctico, percebe - e este é um dos elementos fascinantes deste romance - que ele está hoje longe da sua plena superação e que, pelo contrário, cada vez mais está na ordem do dia numa sociedade como a nossa, onde o efeito sedutor da imagem-corpo se infiltra, como valor “aristocrático”, no ideário do voluntarismo igualitarista. Talvez seja esta a razão sociológica por que a autora sente a “imagem interior” da marquesa de Merteuil a cercar as suas convicções e daí que sinta necessidade de a exorcizar.

Mas, para que as teses de Hella S. Haasse sejam, em coerência, defendidas, há um problema que se lhe coloca - e entramos no segundo nível de leitura - relacionado com a própria construção do romance: como será possível eliminar o papel demiúrgico e manipulador do autor? Choderlos de Laclos resolveu-o de uma forma clássica em As Ligações Perigosas: ao construir o romance através do encadeamento de cartas trocadas, “dissolveu” o efeito mediador e soberano do narrador, dando ao leitor a ilusão de que as personagens são “reais” e conseguindo escamotear assim, quase por completo, o próprio estatuto do autor. Hella S. Haasse opta por uma estratégia narrativa oposta e com efeitos, na aparência, contraditórios: primeiro, enuncia de forma explícita que o estatuto da marquesa de Merteuil é o de personagem de ficção; segundo, ao colocar-se ela própria, Hella S. Haasse, como personagem, emissora e receptora de cartas, provoca a ilusão de autonomizar a sua interlocutora, transmitindo a ideia de que ela pode, de modo independente, pensar e até decidir o seu destino. E, de facto, se, por um lado, a escritora Hella S. Haasse sente necessidade de delinear a configuração física e até o contexto espacial em que a marquesa de Merteuil deambula (coisa que Choderlos de Laclos pouco ou nada fez no seu romance), por outro, dá-lhe o direito de ser ela a definir a interlocutora que necessita (isto é, a própria Hella S. Haasse), de ser ela a denunciar a presença fantasmagórica e manipuladora da autora, de “viciar” o próprio debate, escamoteando informações, e, por fim, de tentar construir o seu destino, fugindo às intenções de quem a criou. O objectivo desta estratégia narrativa torna-se claro quando, na estrutura do romance, a marquesa de Merteuil se transmuta em Merlim a corresponder-se com a Fada Morgana e que se pode resumir na seguinte questão: é o autor que cria a personagem ou é esta, como arquétipo em constante mutação, que "cria” o autor, ao infiltrar-se nas suas inquietações?

Uma Ligação Perigosa levará, decerto, o leitor a interrogar-se, algumas vezes, se não estará em presença de um ensaio que se oculta sob as roupagens de um romance e, por outras, a “irritar-se”, aqui e ali, com algumas desnecessárias derivações eruditas de Hella S. Haasse. No entanto, se conseguir alhear-se destas questões de tipificação literária e se deixar envolver no percurso sinuoso dos argumentos e contra-argumentos destas epístolas, verá que considerará bem estimulantes e actuais algumas das reflexões que esta obra espelha.

Publicado no Público em 1997.


Título: Uma Ligação Perigosa - Cartas de Valmont
Autor: Hella S. Haasse
Tradução (do neerlandês): Ana Pinto de Almeida e Arie Pos
Editor: Editorial Teorema
Ano: 1997
203 págs., € 11,88





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