quinta-feira, 17 de março de 2016

ROBERTO CALASSO

 
 
 
AS MÁSCARAS DOS DEUSES
 
Uma das características de alguma da actual ficção (aquela que certos comentadores ousam definir como pós-moderna) relaciona-se com uma nova análise da estrutura dos mitos. De facto, um sintoma comum a escritores de origem e qualidade muito diversa (lembro, a título de exemplo, John Barth, Michel Rio, Gesualdo Bufalino e Christoph Ransmayr) é a tentativa de equacionar a funcionalidade do mito como figura paradigmática, de modo a que as personagens (mesmo originais) se ajustem com rigor às necessidades (narrativas, estéticas, epistemológicas) actuais.
 
É óbvio que esta tendência não é só dos dias de hoje (não é a novidade o que aqui se pretende), mas o seu carácter sintomático e deliberadamente intencional talvez o seja. Esta atitude é resultante, também é óbvio, da generalizada e forte consciência de que o real literário é sempre um simulacro de si próprio: natural é, por isso, a reflexão sobre os mitos, dado o seu estatuto de fundadores da narratividade e a sua capacidade de abrangente integração e interpretação. Por outro lado, essa reflexão poderá libertar a ficção daquilo que, para alguns autores, é um dos seus maiores perigos: a banalização das personagens e situações (utilizando-se aqui o termo banalização no mesmo sentido em que alguns cineastas falam, com riscos idênticos, de banalização da imagem).
 
É neste contexto que se deve entender a obra de Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia. Aqui o projecto é radical e simples: estabelecer, em síntese global, um novo “olhar” sobre os mitos clássicos gregos.
 
Antes de mais, convém salientar que esse olhar advém de um pressuposto determinado: o de que toda a cultura grega (pelo menos até Platão) assume a sua mitologia como uma hermenêutica. Quer isto dizer, que o comportamento humano é um tecido forrado pelo comportamento divino: nada na existência se produz sem que a teia de fios que conduz à divindade se faça sentir. Daí que a intensidade da vida seja entendida, como Roberto Calasso várias vezes refere, como o excesso resultante da imposição do divino no humano. Essa perturbação, resultante de uma hierogamia, é aplacada pelo sacrifício, que satisfaz os deuses, não só porque realça a sua qualidade excepcional (a imortalidade), mas porque, em contraste, dá consciência aos homens da sua “culpa original”: serem mortais e o seu sangue alimentar-se da morte para existir e circular. Por outro lado, toda a sabedoria humana alvejada parte deste princípio (a presença constante do divino) e, por isso, visa uma temperança que é, por dominância, estética, isto é, “morta”.
 
Repare-se que esta hermenêutica tem origem num acto erótico (a hierogamia), numa posse total. Daí que, para os Gregos, o acto erótico, entre deuses e homens ou entre homens, fosse aquele que permitisse atingir o conhecimento perfeito; o acto erótico transmite do amante ao amado a “graça” (a “charis”) que faz resplandecer o seu olhar, aproximando-o da natureza divina: “luz sobre luz”.
 
Mas, ao mesmo tempo, o acto erótico revela aquilo que, para Roberto Calasso, é fundamental no processo de conhecimento dos Gregos: o simulacro. O acto erótico é um acto de si para si mesmo, simulado pelo objecto amado; é um re-conhecimento, tornando-se a pupila do objecto amado na de Hades (a Morte), onde o amante se reflecte e descobre a precaridade da sua existência, a sua diáfana aparição entre o invisível e o invisível.
 
Percebe-se, assim, porque é que a realidade é translúcida: ela é a simulação de uma outra realidade, a dos deuses, dos heróis, de toda uma multidão de Seres onde de facto se decide a realidade material que os “modernos” assumem como única. Daí a “irresponsabilidade” e a ligeireza de toda a cultura grega, caracterizada pelo relevo da determinante estética e o sub-lugar do ético. E, por outro lado, a importância que nesta cultura tem a fatalidade, o complemento inevitável da irresponsabilidade: Ananké, a única deusa que não vale a pena nomear, porque não ouve.
 
O que querem os homens dos deuses? Pouca coisa (na verdade, os homens vivem bem sem os deuses porque estes vivem sempre com eles): uma certa beleza, distinta daquela que, na vida, está contida no excesso fatal que é a morte. Por isso, os Gregos foram, como se afirma em As Núpcias de Cadmo e Harmonia, grandes criadores de moldes, de molduras: a arte é, por essência, a criação de uma forma, de uma ordem, onde se procura “ocultar” o excesso natural através da “techné”. Por outro lado, a retórica, refere o anónimo autor de A Cerca do Sublime, citado por Roberto Calasso, é uma tentativa de transmitir “luz” ao já iluminado, sendo esta habilidade, em exclusivo humana, aquela que se aproxima mais das características demiúrgicas dos deuses.
 
A arte, e principalmente a literatura, é, por conseguinte, uma narrativa onde se procura envolver o mito. Esta simulação, procurando abranger, de forma fragmentária, todas as variantes do mito, pretende atingir o conhecimento através de um artifício de ofuscação, uma vez que o seu significado, para que seja perfeita, deverá ser apenas “uma pequena tira oscilante de lã”, presa a uma forma, que alude mais do que desvenda: “o primeiro inimigo do estético é o significado”, afirma-se a determinado passo de As Núpcias de Cadmo e Harmonia.
 
Por isso, quando os deuses e os heróis resolveram iludir a sua permanente presença entre os homens (os últimos heróis foram Édipo e Odisseus, mestres da palavra), quando os homens se afastaram dos deuses, dando sentido à sua existência através da hipótese da “salvação” (e aqui tiveram um papel importante os órficos e Platão), “o contacto com os seres e lugares primordiais apenas poderá acontecer através da literatura”. As núpcias dos heróis Cadmo e Harmonia foram o derradeiro momento da “máxima aproximação” entre os deuses e os homens; depois, envelhecidos, expulsos de Tebas por Dionisos, Cadmo, o fenício, aquele que espalhará pela terra grega as “pegadas de mosca” do alfabeto, e Harmonia, “a que concilia o oposto e o selvagem”, foram obrigados a continuar sua errância e a dar início à História.
 
Convém assinalar, a terminar, que a leitura aqui feita de As Núpcias de Cadmo e Harmonia é só uma forma, retoricamente humilde, de caminhar pela beleza fulgurante desta prosa pura (no sentido mais preciso que este termo deve ter - o de um texto que vive da deriva permanente entre géneros). Impossível pretender acompanhar a sua sinuosidade, colmatar a sua ilusória fragmentação. A justeza entre forma e perspectiva (e esta é notoriamente pré-romântica) consegue que esta obra de Roberto Calasso nunca se transforme num manual sobre a mitologia grega, mas antes num tratado que parece que não o é; ou seja, onde os sentidos são, em permanência, integrados e centrifugados. É desta justeza, resultante de uma reflexão classicizante e inovadora sobre a cosmovisão homérica, que advém a imensa importância desta obra: ninguém mais, depois da leitura de As Núpcias de Cadmo e Harmonia, pode continuar ingenuamente convicto do estatuto irreversível da modernidade.
 
 
Publicado no Público em 1990
 
Título: As Núpcias de Cadmo e Harmonia
Autor: Roberto Calasso
Tradução: Maria Jorge Vilar de Figueiredo
Editor: Edições Cotovia
Ano: 1990
396 págs., € 5,00
 




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