segunda-feira, 1 de outubro de 2012

ELIZABETH GEORGE



A LÓGICA ASSASSINA



Um dos factos mais intrigantes no romance policial é a importância dos autores do sexo feminino neste universo de violência e de crime. Não existe, seguramente, nenhum outro subgénero literário em que as mulheres tenham tal importância criadora. Não só se constata a sua presença quase desde a sua origem como, a partir dos anos vinte do nosso século, principalmente em Inglaterra, se afirmaram como alguns dos autores mais proeminentes deste tipo de ficção. Basta recordar o caso de Agatha Christie, cuja obra é ainda hoje uma das mais lidas em todo o mundo, com várias dezenas de milhões de exemplares vendidos por ano. Além disso, o que é um facto sintomático das profundas transformações actuais da sociedade, as escritoras introduziram-se, a partir dos anos oitenta, com um tremendo sucesso comercial, no universo hegemonicamente masculino do romance negro. Hoje, seguindo as pegadas de uma Sara Paretsky ou de uma Sue Grafton, existem, um pouco por todo lado, autoras que conseguiram conquistar um lugar de primeiro plano num dos bastiões literários que parecia ser de uma masculinidade inexpugnável.

Na Inglaterra, já depois da geração de P. D. James e Ruth Rendell, que se firmou durante os anos sessenta e setenta, apareceu uma nova geração de escritoras de romances policiais, ainda pouco conhecidas no nosso país, onde pontuam Minette Walters, Frances Fyfield e, curiosamente, duas autoras de origem americana que situam toda a sua obra nas Ilhas Britânicas: Martha Grimes e Elizabeth George. Foi desta última, nascida em 1949 no Ohio, e já com oito romances publicados, que pela primeira vez se editou agora no nosso país uma obra, a mais recente, com o título Na Presença do Inimigo.

Antes do mais, convém referir que esta obra entronca na mais genuína tradição do romance policial, associando a componente mistério com ténues matizes de “thriller” e suspense, e conseguindo, tal como sucede sempre nos bons romances deste género, uma perspicaz caracterização das ambiências psicológicas e sociais das personagens tipificadas.

No entanto, Na Presença do Inimigo possui algumas inovações assinaláveis no quadro do romance policial: por um lado, não existe a característica personagem central que, possuidora de uma excepcional capacidade analítica, é a principal responsável pelo desvendar do próprio crime; por outro, a autora abdica do próprio artifício que é a existência de um raciocínio soberano que, de forma mais ou menos linear, vai conectando, como num puzzle, vestígios até à reconstituição da cena criminosa. Pelo contrário, de uma forma muito mais plausível, o exercício de investigação parte de vários hipotéticos vestígios e, por percursos distintos e diversos tentames, vai aproximando-se da resolução do mistério: no fundo, a compreensão do crime é fruto de um acaso que a própria investigação, ao eliminar pistas erróneas, tornou possível.

A partir de uma trama centrada em sinistros raptos de crianças, Elizabeth George orienta a sua observação, nesta obra, para o ambiente hipocritamente puritano que mina o Partido Conservador durante o período recente em que esteve no poder em Inglaterra e, em paralelo, para a falta de escrúpulos do famigerado jornalismo de escândalos britânico que, no fundo, se alimenta do jogo duplo, entre vida pública e privada, dos grupos sociais dominantes. O que Na Presença do Inimigo revela é a existência de um verdadeiro “braço de ferro” entre estas duas forças com vista a controlar a opinião pública e como esta luta origina lógicas brutais que não só favorecem certo tipo de carreirismos, de todo destituído de valores e sentimentos, como admitem aproveitar-se de todas as fragilidades do adversário, inclusive sacrificar figuras completamente alheias a esta “guerra”, como é o caso dos elementos familiares. Na situação concreta exemplificada no romance, as crianças raptadas são títeres vitimados por estas lógicas e o próprio rapto não passa de um acidente criminoso que permite revelar até que ponto elas podem chegar. Por outro lado, Na Presença do Inimigo mostra, através de uma situação patética e quase absurda, os efeitos nefastos, e mesmo perigosos, que o jornalismo sensacionalista pode provocar ao cultivar, entre os seus leitores, o fascínio pela vida privada de figuras públicas.

Por fim, é pertinente assinalar como acontecimentos recentes (a morte da Princesa de Gales) vêm confirmar a actualidade e a importância da problemática retratada em Na Presença do Inimigo. Estas coincidências não são fruto do acaso. Um dos maiores méritos da boa literatura policial é a sua capacidade para absorver os bons e os maus “espíritos do tempo” e o presente romance, perante estes factos recentes, ganha, sem dúvida, um interesse redobrado: o leitor poderá perceber como se delineiam os comportamentos, os jogos e os interesses que estão subjacentes a situações como aquelas que vitimou a Lady Di. Só é pena que a obra tenha uma dimensão talvez excessiva - abordando muito vagamente outros aspectos da sociedade britânica, como, por exemplo, o caso do I.R.A., que, por impossibilidade de um tratamento aprofundado, deveriam ser eliminados - e seja traduzida de uma forma pouco mais do que sofrível.


Publicado no Público em 1997.


Título: Na Presença do Inimigo
Autor: Elizabeth George
Tradutor: Ana Faria
Editor: Planeta Editora
Ano: 1997
567 págs., esg.



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