quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

JOSEPH MITCHELL


 
 
 
 
O ESCRITOR VAGABUNDO
 
As crónicas de Joseph Mitchell, publicadas na conhecida revista “The New Yorker”, são consideradas, desde que apareceram, como um modelo exemplar de jornalismo e tornaram-se significativamente influentes na imprensa escrita americana. Mas a reedição, já na década de noventa, de alguns dos seus livros, como é o caso deste O Segredo de Joe Gould, agora (muito bem) traduzido para português, veio revelar que Joseph Mitchell escreveu, além disso, verdadeiros clássicos da literatura contemporânea. E este facto volta a colocar, pela positiva, a questão, que poderá parecer ultrapassada para alguns, da pregnância entre jornalismo (em particular, nos casos da crónica e da reportagem, onde os imperativos informativos podem ser mais atenuados) e literatura.
 
Joseph Mitchell nasceu na Carolina do Norte, nas planícies do algodão e do tabaco, no final da primeira década do séc. XX e, ainda não tinha concluido os estudos universitários, quando decidiu dedicar-se ao jornalismo. Descoberto por um editor de imprensa de Nova Iorque, veio, com pouco mais de vinte anos, trabalhar para esta cidade, apaixonando-se de imediato pelos seus espaços e pela sua heteróclita população. Mas é só, em 1938, quando entra para os quadros da “The New Yorker” (e onde trabalhou até à sua morte, em 1996) que Joseph Mitchell granjeou uma notoriedade nacional como cronista e repórter. O seu olhar de “sulista” leva-o a encarar o cosmopolitismo novaiorquino de uma forma, ao mesmo tempo, distanciada e generosa, fazendo com que recrie, nas páginas das suas crónicas, num estilo cuidado e elegante e em moldes humorados e enternecidos, o ambiente peculiar de praças e ruas, de bares e restaurantes de Manhattan, onde se cruzam artistas, jornalistas e escritores, mais ou menos famosos e prestigiados, com a gente humilde de empregados, pequenos comerciantes, vagabundos e criminosos.
 
Joe Gould, a personagem central destas duas crónicas integradas na obra agora editada, escritas com um intervalo de vinte anos, é um vagabundo que vive nas ruas de Manhattan, em particular em Greenwich Village. Formado em Harvard, descendente de uma velha família de Massachusetts, abandonou as hipóteses de uma vida bem estabelecida para se dedicar em exclusivo à elaboração de uma obra interminável, que intitula “História Oral do Nosso Tempo”, sobrevivendo com as ajudas ocasionais da população típica daquele bairro novaiorquino. Essa obra, cujo infinito manuscrito Joe Gould afirma que se encontra disperso por diversas casas de amigos, regista todo o tipo de conversas que ele ouve nas ruas, bares e metro de Nova York, associando-as a comentários, reflexões, derivações múltiplas, numa cadeia discursiva ininterrupta que mais parece um “rasto” físico da passagem do tempo. A personagem (manhosa e ingénua, exibicionista e tímida, ambiciosa e humilde) torna-se num enigma que suscita a curiosidade e a generosidade, a irritação e a ironia, de quem o vem a conhecer (entre outros, de Ezra Pound, e. e. cummings e William Saroyan). Na perseguição desta personagem e do mistério que a envolve, Joseph Mitchell elabora, de uma forma despretensiosa, um vivo fresco do meio intelectual e boémio de Nova Iorque, tornando O Segredo de Joe Gould numa obra particularmente interessante sobre o “pulsar” desta cidade no período compreendido entre os anos trinta e sessenta.
 
Mas o que dá uma auréola literária fascinante a esta obra de Joseph Mitchell é a forma como o autor consegue transfigurar a personagem de Joe Gould numa espécie de arquétipo da própria condição do escritor. De facto, a figura de um homem que renuncia a tudo, entregando-se à redacção da sua obra e só aceitando da existência o que, directa ou indirectamente, contribui para a sua tarefa “essencial” – transformando o corpo físico do autor numa espécie de medium necessário para que a obra se escreva -, é a imagem que os escritores, na linha de uma certa tradição romântica, fazem do seu papel e estatuto. Se, além disso, essa figura se coloca, de forma deliberada, numa atitude marginal à sociedade para, de um modo obsessivo, sobre ela se debruçar, registando-a e codificando-a, pode afirmar-se que essa figura, como é o caso da personagem Joe Gould, assume, “in extremis”, o projecto existencial que qualquer autor imagina para si - mas nunca terá, já que irá imperar o bom senso de reconhecer que essa postura será autodestrutiva. Por fim, o próprio “segredo” de Joe Gould reforça este sentido até à caricatura, pois parece sempre – para quem escreve – que a obra se devora a si própria, na infinitude dos registos possíveis de um tempo, reduzindo o corpo físico do autor a uma “pose” e a um aberrante desperdício de vida. Mas haverá outra solução possível?
 
Ora, é nesta capacidade estilística de transfigurar um acto de informação num texto com a capacidade de reproduzir sentidos (como num jogo de “matrioskas”) que poderá estar uma das fronteiras mais significativas entre jornalismo e literatura. E, nesse aspecto, O Segredo de Joe Gould de Joseph Mitchell é absolutamente esclarecedor e exemplar.
 
Publicado no Público em 2001.
 
 
Título: O Segredo de Joe Gould
Autor: Joseph Mitchell
Tradutor: José Lima
Prefácio: António Lobo Antunes
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 2001
142 págs., esg.
 
 



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