segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

D. H. LAWRENCE 1

 
 
 
 

A Natureza e o Poder
 
Um dos aspectos fundamentais da actividade artística é o seu carácter de síncrese, isto é, de reprodução de diversas componentes que, mantendo uma situação conflitual na obra, são, também, por si, reprodutoras.
 
Uma dessas componentes (que só teoricamente podemos tentar demarcar em consequência da referida relação conflitual) é a inevitável componente ideológica. Tão inevitável e tão importante que é muitas vezes ela, com a intrincada componente estética, que maior peso tem na caracterização da constante modernidade de uma obra.
 
A publicação de um livro de contos de D. H. Lawrence, Amor No Feno e Outros Contos, permite-nos realçar essa componente na obra deste autor, não só porque os textos agora publicados são neste aspecto bem esclarecedores (para lá de serem dos mais admiráveis que lhe conhecemos, em particular esses dois fabulosos textos que concluem o presente livro: “O Homem Que Amava Ilhas” e “O Homem Que Morreu”), como por consideramos que certas linhas da sua reflexão podem ser revisitadas em termos conceptuais e revelarem-se muito interessantes nos dias de hoje.
 
D. H. Lawrence é um dos pontos de passagem dessa corrente mais subterrânea do pensamento ocidental que sistematicamente prevalece o individual contra o social, o afectivo e a sua racionalidade contra a racionalidade da razão, a natureza contra o institucional/civilizacional, a ânsia de nomadismo e fuga contra a ambição de território e poder.
 
Mas na produção literária deste autor nunca tal reflexão procurou estabelecer-se como um sistema ou construir-se numa ética, pretendendo mais ser possuída por uma visão cósmica do que ser uma cosmovisão. Para isso, D. H. Lawrence coloca-se numa atitude limite (e mítica) de captação da afirmação “natural” da vida ou, se se quiser, da afirmação do Ser na Natureza.
 
A Natureza
 
Neste sentido, para este autor, o Homem só “vive” se conseguir afirmar em si a Natureza que nele existe. Mas esta só se afirmará se se atingir uma sintonia perfeita entre Ser e Natureza.
 
Ora tal sintonia só é total no acto de amor. Só com ele se regressa a esse Paraíso perdido. Porque o Homem sofreu um corte original que afastou os seus complementos (homem/mulher) e fez aparecer um outro continente compensatório constituído pela Sociedade/Razão. O social/racional é a Terra para onde o Homem, fragmentado, foi “desterrado”.
 
Logo, para D. H. Lawrence, esse continente compensatório só deve ser encarado como um lugar de passagem que facilite o “regresso” ao acto de amor. Encarado sem esse objectivo, como um valor em si, leva ao estiolamento da afirmação da Natureza, sendo, por isso, mortal.
 
A Natureza é, portanto, a vida (“como um cão molhado enroscado na sua depressão, ou uma cobra que não está desperta nem a dormir”). E é, por isso, atemporal: isto é, está contida nela o tempo, vivendo aquela da morte que este produz (“um mundo escuro infinito em que viviam as almas todas de todas as noites passadas”). Parte desta consciência o verdadeiro sentido e dimensão do (nosso) viver: sermos um grão de areia face a infinitude da Natureza, estando, ao mesmo tempo, em nós toda a vida, porque única.
 
Mas tal consciência só se tem em lugares privilegiados, onde a interferência do social e do civilizacional seja mínima, como, no, exemplo do conto “O Homem Que Amava Ilhas”, uma ilha deserta:”(...) quando nos isolamos numa ilha pequena no mar do espaço e o momento começa a inchar e a expandir-se em grandes círculos, vai-se a terra sólida e a nossa alma escura, nua, escorregadia, acha-se no mundo intemporal, onde os carros da chamada morte se precipitam pelas velhas ruas dos séculos e as almas se apinham nos caminhos a que nós, no momento, chamamos anos passados. As almas dos mortos estão vivas, de novo, e pulsam activamente em redor de nós. Estamos perdidos no outro infinito.”
 
A cidade, o lugar das “polainas brancas”, da paisagem concentrada do civilizacional e do institucional, transmite, pelo contrário, um sentimento de competição, uma ânsia de poder e uma rede de “obrigação” que fazem com que o temor da morte torne opaca a nossa “alma” à presença da Natureza e à infinitude do tempo.
 
Pode-se, por isso, vincando os traços, dizer que, para D. H. Lawrence, o Homem não passa de uma “concha” que se alimenta da energia vinda do sol, das árvores, da terra, sinais de uma “fala” da Natureza onde a “voz” principal é, como vimos, o amor (a lenta ressurreição da personagem principal do conto “O Homem Que Morreu” caracteriza bem a importância vital destes elementos). Mas também pode tornar-se uma “concha” oca, espécie de cadáver móbil, se, por razões caracteriais ou institucionais, se “ensurdecer” a essas “vozes” (é o caso de Robert do conto “A Senhora Formosa”, cujo comportamento tímido e fraco não é mais do que as “sobras” resultantes da voracidade da mãe e, indirectamente, da instituição familiar).
 
A presença do institucional e da sua dimensão diacrónica, o civilizacional, podem tornar-se, portanto, perniciosas para a revelação do amor. Porque se o carácter fusional do amor não permite que se reconheça a independência dos seus complementos, a imposição de relações de dependência e de poder, por parte do institucional, só institui a morte.
 
O amor é assim fundamental como reafirmação da Natureza, da vida perante a morte. E a energia, que ele transmite, transforma-nos numa bandeira contra a relatividade desse continente compensatório do social/racional, do institucional/civilizacional, conscientes que ficamos da possibilidade de dele nos libertarmos.
 
No entanto, se é este o posicionamento do social e do institucional na reflexão de D. H. Lawrence, não se pode dizer que ele seja puramente anti-social: as situações demissionárias face ao social são acusadas de fraqueza, de impotência, de cobardia (repare-se, por exemplo, na caracterização do marido de Lydia no conto “O Amor No Feno”), e também, a seu modo, consideradas como uma dissolução mortal na Natureza.
 
Portanto, a presença do social é necessária como uma vertente fundamental para o equilíbrio do Homem, como uma espécie de “vida menor” (para aplicar os termos da reflexão da personagem principal de “O Homem Que Morreu”), fornecedora dos elementos básicos materiais, alimentares e sexuais, e quadro limite onde decorre a existência da maioria dos homens. É esta que serve de sustentáculo da “vida maior”, somente alcançada por aqueles que tomaram consciência do lugar do Ser na Natureza.
 
O Poder
 
Para D. H. Lawrence, o amor define-se numa permuta em pé de igualdade. A existência de qualquer desequilíbrio nessa relação de dar/receber cria uma hierarquia nefasta, originadora de excessos fatais.
 
Dar mais do que receber é assumir um lugar de sacrifício, cristão, produto de um puro acto de vontade, descarnado. Daí que haja em D. H. Lawrence uma clara rejeição de qualquer atitude de militância ou missão social. Um dos fios condutores do belíssimo conto “O Homem Que Morreu” é este mesmo: a lenta libertação pela morte de um homem que, embrenhado numa missão de salvação, só tinha chamado a si a traição, fazendo com que os outros amassem como cadáveres o seu cadáver: “De repente, percebeu: pedi a todos que me servissem com o cadáver do seu amor. E, no fim, ofereci-lhes apenas o cadáver do meu amor. Este é o meu corpo - tomai e comei - o meu corpo morto…(…)”Afinal”, pensou, “quis que eles amassem com os corpos mortos. Se eu tivesse beijado Judas com amor vivo, talvez ele nunca me tivesse beijado com a morte. Talvez ele me amasse na carne e eu quis que me amasse desprezando a carne, com o cadáver do amor...
 
Receber mais do que dar é ocupar um lugar de poder, que possibilita “alimentar-se” com a vida dos outros: mas também esse “alimento” se revelará “terrestre”, ilusório, conduzindo a um inevitável envenenamento de quem o recebe (é este um dos sentidos do conto “A Senhora Formosa” e também o traço fundamental na caracterização de Madalena de “O Homem que Morreu”: “A nuvem da necessidade estava nela: de ser salva da velha Eva caprichosa, que abraçara tantos homens e recebera mais do que dera. Agora, abatera-se sobre ela a outra perdição. Queria dar sem receber. E também isso é duro e cruel para o corpo quente.”)
 
É com base nesta reflexão sobre o carácter pernicioso de um desequilíbrio no amor que D. H. Lawrence, principalmente no conto “O Homem Que Amava Ilhas”, procura caracterizar o desejo de poder face à Natureza e aos outros e o comportamento que ele determina.
 
Porque o pensamento de poder pretende-se, antes do mais, amoroso: ama o que procura dominar e por amor o domina. Só que este “amor” é consequência de uma fraqueza caracterial, em que se anseia mais por se ser reconhecido do que em (re)conhecer: o poder busca sempre no rosto dos outros o resultado da sua acção e, por fim, a sua própria imagem. É esta a razão por que o desejo de poder cria a necessidade de um território, isto é, de lugares e de outros como lugares a habitar (ou, como diz D. H. Lawrence, “para podermos ter a sensação de que esta cheia da nossa personalidade”).
 
Pode dizer-se, por isso, que este “amor” é narcísico, já que, partindo de um lugar de dominação, se torna um “amor” de posse que procura corporizar nele o outro.
 
Por outro lado, o poder pretende afirmar-se numa praxis de perfeição que dome a Natureza a uma imagem de Paraíso. Mas, como imagem reflexa de uma subjectividade, o resultado é a tentativa de reordenamento da Natureza segundo a vontade de um Senhor inconsciente da infinitude dela.
 
Assim, o poder é dominado por uma vontade utópica, por uma vertigem totalitária: a construção de um Paraíso. E o objectivo dessa construção é o reconhecimento por parte da Natureza e dos outros de que esse construtor é o Senhor, não o Senhor A ou B, isto é alguém que necessite de uma nomeação circunstanciada (“Ele era o Senhor. (...) Assim, o ilhéu já não era o Sr. Tal-e-Tal”). O Senhor passa a ser a personificação da Criação (“o poeta”) e da Ordem que aquela instaura: como tal é “a fonte da sabedoria sobre tudo”.
 
Por isso, é também o lugar do Pai: o Senhor nunca pertence à nossa condição, descendo somente a ela, complacente e terno, como o criador se debruça sobre aquilo que cria. Mas essa condição de excepção é também motivo da sua fragilidade, fazendo dele um eterno solitário: é-lhe impossível amar os homens e a Natureza como homem, isto é, como ser criado. Os outros encaram-no então com ironia, conscientes da desmesura e da insensatez do seu projecto.
 
A dessintonia com a Natureza e a inconsciência da sua infinitude criaram assim no poder a necessidade de lhe impor um modelo. Mas a Natureza irá rebelar-se contra essa pretensão, destruindo-lhe o querer, quebrando a sua vontade e absorvendo-o. E os homens, a quem o poder bondosamente oferecia o Paraíso, vão revoltar-se também contra ele: ninguém cabe no lugar que outro criou para ele.
 
Nasce também aqui, para D. H. Lawrence, a sociabilidade: do conflito entre os desejos de Paraíso que cada um traz dentro de si. E a história da civilização é a narrativa do sistemático desequilíbrio produzido por esse conflito.
 
São estas, em linhas muito genéricas, algumas das pontas da reflexão de D. H. Lawrence que atravessa os textos de Amor No Feno e Outros Contos. Mas, como já referimos, a sua própria construção narrativa é tecida por uma malha de situações, metáforas e símbolos que têm um valor conceptual especifico, difícil de autonomizar do seu contexto como um eventual sistema. E é dessa tessitura cerrada e elíptica que brota a intensidade poética e o fascínio mágico que a elas nos prendem.
                                                                                         
Publicado no JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias em 1982.
 
 
Título: Amor No Feno e Outros Contos
Autor. D. H. Lawrence
Tradutor: Maria Teresa Guerreiro
Editor: Assírio & Alvim
Ano: 1982
220 págs., € 9,45
 


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