quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

TIM O'BRIEN

 
 
 
 

OS SENTIMENTOS RISÍVEIS
 
Para quem procure ver no romance, entre outros aspectos, um testemunho do correr dos tempos, fica forçosamente intrigado com o facto de este pouco reflectir, pelo menos com obras de grande fôlego, as situações de guerra que se viveram durante este século. Não se quer dizer com isto que não exista importantes obras memorialistas nem que não haja obras literárias, e marcantes, do séc. XX, onde a guerra se encontre de um modo indirecto reflectida. Mas poucas existem em que o próprio “palco de guerra” seja o cenário dominante (ao contrário, por exemplo, do que sucede no cinema). E, no entanto, como experiência-limite, onde tudo o que é determinante no homem está em jogo, a guerra deveria estimular o aparecimento de excelentes obras de ficção. Será que, por excesso, as situações de guerra bloqueiam o poder criativo da arte narrativa?
 
Um bom exemplo deste facto é a Guerra do Vietname. Uma literatura tão poderosa, em termos narrativos, como a norte-americana, apresenta poucos exemplos de autores significativos que se tenham dedicado a testemunhar, pelo romance, esta guerra tão traumática para os Estados Unidos: recordo os nomes de Tim O’Brien, Michael Herr, Philip Caputo, Robert Stone e Tobias Wolff (se exceptuarmos este último - e com uma produção literária que ultrapassa esta delimitação temática - todos os restantes nomes pouco ou nada devem dizer ao leitor português). Se se juntar a estes autores, o nome de alguns memorialistas, como Ron Kovic (principalmente conhecido porque foi com base no seu livro que Oliver Stone realizou o filme Nascido a 4 de Julho), e de alguns poetas, também pouco conhecidos, pode dizer-se que fica encerrada a lista de autores cuja produção literária abordou a Guerra do Vietname. Tem de se concluir que é indiscutivelmente pouco.
 
Quanto mais não fosse porque escreveu dois dos mais importantes romances sobre a Guerra do Vietname (Going After Cacciato, que ganhou o National Book Award, e In The Lake of the Woods) e um magnífico livro de memórias (If I Die in a Combat Zone, Box Me Up and Ship Me Home), a saída em edição portuguesa de um romance de Tim O’Brien deve ser assinalada. Essa obra, intitulada Tomcat in Love, é a primeira do autor que não se centra na Guerra referida (o tema deste romance é a chamada “guerra dos sexos”), continuando, no entanto, a pautar-se pelas mesmas características estilísticas que deram evidência ao autor nas anteriores obras e em que se destaca um humor que decompõe até à irrisão todas as situações humanas, mesmo as mais extremas e dolorosas.
 
A figura central de Tomcat in Love é um professor universitário de Linguística e Literatura, já quarentão, que tem duas obsessões na vida: vingar-se da sua ex-mulher (por quem está convencido que tem uma paixão única, exclusiva, desde o início da adolescência) por o ter abandonado e anotar, de um modo minucioso, as características físicas e psíquicas de todas as mulheres que dele se aproximaram e lhe deram a mais breve atenção. São estas duas obsessões - que se vão revelar conflituosas entre si - que irão motivar um infindável périplo de calamitosas peripécias que o levarão a uma situação degradante em termos sociais e a mergulhá-lo num estado de perturbação quase irreparável.
 
Encadeando um conjunto de situações muito engenhosas e imprevisíveis, o romance sustenta-se num registo de humor que atinge, por vezes, a caricatura a traço grosso, ressalvando-se apenas, aqui e além, um “olhar” que procura tingir de alguma piedade a futilidade das emoções e dos sentimentos humanos (e, neste aspecto, torna-se curiosa a forma como o autor procura estabelecer “cumplicidades” com as leitoras que se encontram em situação de “abandono amoroso” similar à da personagem principal). Se, em geral, Tomcat in Love não consegue, em termos puramente estéticos, transmitir um profícuo prazer de leitura (em particular, porque se torna desgastante e monótona a tónica de autocomiseração que subjaz à estereotipização constante do comportamento amoroso masculino), é forçoso reconhecer que o romance não deixa, por isso, de possuir alguns conceitos estimulantes. Antes do mais, deve ser referida a ideia, estruturante na arquitectura do romance, de que a repercussão histérica das emoções e dos sentimentos é, em exclusivo, alimentada por uma espécie de semântica pessoal, onde as palavras se revestem de um “significado íntimo”; a segunda, onde se procura conectar as relações de dependência afectiva com fixações de culpa geradas, e vorazmente silenciadas, em fases iniciais da formação caracterial (veja-se a descrição muito bem conseguida, logo no início do romance, da forma como se estabelece, entre o cunhado, a ex-mulher e a personagem principal, o imbricamento emocional que determina o seu relacionamento futuro).
 
 
Publicado no Público em 1999.

(Foto do Autor de Darren Carroll).
 
Título: Tomcat in Love
Autor: Tim O’Brien
Tradução: Rute Rosa da Silva
Editor: Difel
Ano: 1999
408 págs., esg.
 
 
 
 
 


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