quinta-feira, 3 de setembro de 2015

GRAHAM SWIFT


 
 
 

A CONTAMINAÇÃO DOS AFECTOS

 

Um dos factos literários mais expressivos da última década relaciona-se com o número avassalador de obras e de autores que se podem considerar enquadráveis numa estética realista. É certo que esses autores, na generalidade dos casos, recusam esses parâmetros e não assumem que, de forma intencional, tenham resolvido repegar em qualquer “fio” - as tendências realistas das décadas de quarenta e cinquenta, por exemplo - que tenha ficado, solto e perdido, nas brumas da história literária. Pelo contrário, parece que é o mais singelo e puro prazer de contar histórias, de testemunhar (mas testemunhar “mesmo”, isto é, sem nenhum objectivo exemplar ou programático) sobre experiências e vidas que levou os escritores a aproximarem-se da estética realista.

 
Por isso, nunca a crítica literária ousou correlacionar os actuais escritores ingleses de obras realistas com a corrente do chamado “realismo britânico” (haverá, de facto, alguma relação entre a presente produção literária inglesa e as obras de um John Braine ou de um Allan Sillitoe?). Porém, devia-se também considerar que é um pouco ilusório crer que esse desejo de contar histórias de vidas baste para definir uma estética e que seja possível fazer “tábua rasa” de contributos - assentes num desejo muito similar - que, no fundo, já estão diluídos no próprio fluir literário.

 
Estas considerações tornam-se particularmente oportunas na leitura de uma obra como Últimas Vontades, o mais recente romance de Graham Swift, vencedora do último Booker Prize. Autor com uma meia dúzia de títulos publicados (dos quais as Publicações Dom Quixote editou alguns em Portugal), Graham Swift já tinha sido finalista do mesmo prémio literário com O País das Águas e foi considerado, há alguns anos, pela prestigiada revista “Granta”, como um dos vinte mais importantes escritores vivos em Inglaterra. O que é certo é que este estatuto não o livrou de uma acusação de plágio feita por um professor de Literatura australiano que considerou que o tema e a estrutura narrativa de Últimas Vontades eram decalcados de As I Lay Dying de William Faulkner, o que originou uma tremenda polémica sobre o que é na verdade plágio e obrigou autores, como Malcolm Bradbury, Julian Barnes e Salman Rushdie, a virem em defesa do acusado.

 
De facto, a acção de Últimas Vontades é, de certo modo, pouco original e simples: quatro velhos amigos, cumprindo as indicações deixadas à hora da morte por outro amigo, viajam pelo Kent até à povoação de Margate para lançarem as cinzas dele ao mar. Esse grupo de amigos, vizinhos num bairro popular londrino, é gente absolutamente vulgar: um talhante, um cangalheiro, um vendedor de legumes, um mecânico de automóveis e um empregado de seguros que equilibra o seu orçamento, apostando nas corridas de cavalos.

 
Pode afirmar-se, por conseguinte, que existe, de forma intencional, uma opção estratégica de “banalização” como ponto de partida romanesco. Como se a aposta do escritor fosse arrancar de um nível bem “incaracterístico” e conseguir, a partir daí, elaborar uma obra que “personalize” as personagens (passe a redundância), que lhes dê espessura e dimensão.

 
Enquanto a viagem decorre, os quatro amigos (e a viúva do defunto que, não viajando com eles, é uma espécie de “presença circulante” na sua consciência) vão rememorando as relações entre si e com o amigo falecido, começando, gradualmente, a sobressair os conflitos e as pequenas perfídias, e, por consequência, as contradições entre as cumplicidades veladas e as manifestações públicas de afecto que atravessam sempre as longas relações de amizade. De capítulo em capítulo, numa espécie de movimento sinusoidal das palavras e da memória, vão erguendo-se Ray, Jack, Amy, Vince e Vic, com as suas tragédias familiares silenciadas, as opções que perderam no emaranhado dos sentimentos, as fragilidades caracteriais que as situações de tensão e bloqueio fizeram desabrochar, as hipóteses de vida que só foram isso e que, por conseguinte, se transformaram em arquétipos norteando os afectos durante toda a existência. A vida aparece resumida a uma espécie de jogo, onde se fazem apostas, em que se perde e ganha, e as relações entre as pessoas não passam de “visitas” à irremediável solidão de cada um, aproximações que transfiguram ou massacram, deixando sempre a nostalgia do que escapou: como afirma Jack, o talhante falecido, a sobrevivência é o simples resultado - como na sua profissão - da gestão do desperdício. 

 
Será fácil, e não de todo incorrecto, afirmar que esta viagem é encarada como um processo de aprendizagem. E, naturalmente, da morte. Mas será? Estas rememorações parecem, de facto, convencer as diversas personagens de uma vaga “certeza” que dão os balanços feitos nas proximidades da morte; mas para que servem os balanços de vida se neles se memoriza principalmente as percas?

 
O que é certo, leitor, é que com os seus silêncios, com os seus desgostos que atravessam uma vida, com a alegria das suas descobertas contingentes, estas personagens revelar-se-ão inesquecíveis companheiros de “viagem”. E, para isso, em muito contribuirá o estilo adoptado por Graham Swift nesta obra, marcadamente despojado, eliminando qualquer efeito literário e “colando-se” ao humor e ao carácter abrupto da coloquialidade popular londrina; no essencial, percebe-se que, em termos estilísticos, se procura estabelecer uma perfeita consonância com a despretensão do “olhar” das personagens do romance.

 
Últimas Vontades é um excelente romance sobre a “contaminação” dos afectos, de como estes não se constroem através da irradiação de uma “pureza” nuclear, mas como um rizoma de contingências, boas e nefastas, que enleia em cumplicidades antagónicas as pessoas. De um modo inequívoco, é um romance que consegue satisfazer o leitor naquilo que ele mais legitimamente procura na ficção: interrogar-se com o autor e com as personagens, fazendo-o lembrar-se que a vida há-de sempre confinar-se a “cinzas lançadas ao vento diante da terra dos sonhos”.

 
Publicado no Público em 1997.

 
(Foto do Autor de Graham Turner).

 
Título: Últimas Vontades
Autor: Graham Swift
Tradutor: Maria João Delgado e Luísa Feijó
Editor: Publicações Dom Quixote
Ano: 1997
314 págs., € 17,16
 
 




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